Aos 88 anos, Roberto Schwarz relança A Sereia e o Desconfiado, seu primeiro livro de ensaios, publicado em 1965. A obra inicial já reúne procedimentos que atravessariam sua crítica: leitura minuciosa dos textos, análise das posições ideológicas e investigação das relações entre literatura e sociedade.
O eixo de sua interpretação está na formação brasileira como um amálgama de escravismo, clientelismo e ideário liberal-burguês. Para Schwarz, essa combinação produziu relações sociais específicas, marcadas pela distância entre proprietários, dependentes e escravizados, e também determinou os problemas formais enfrentados pelos escritores.
A literatura diante da formação brasileira
O ensaio As Ideias Fora do Lugar, de 1972, introduziu Ao Vencedor as Batatas, publicado em 1977, e estabeleceu a base da investigação sobre o que Schwarz mais tarde chamaria de matéria brasileira. O texto examinou o deslocamento de ideias modernas para uma sociedade escravista regida pelo favor e procurou explicar o sentimento de inautenticidade que acompanhava a vida intelectual do país.
A questão, nessa leitura, não estava simplesmente na importação de modelos estrangeiros. O problema decorria da estrutura social brasileira, que reproduzia desigualdades internas e conferia às ideias liberais um funcionamento diferente daquele associado à experiência europeia. O país, assim, combinava práticas senhoriais e atitudes liberais-burguesas dentro de uma ordem social estabilizada.
Em Nacional por Subtração, de 1986, Schwarz retomou o tema e afirmou que a estrutura social desigual conferia à cultura uma posição contraditória. A experiência brasileira, porém, não era isolada da história mundial: tanto a reprodução das desigualdades quanto o funcionamento particular do liberalismo resultavam da inserção do país no capitalismo moderno.
Essa formulação também orientou a análise do romance. Antes de tratar de Machado de Assis, Schwarz examinou Senhora, de José de Alencar, para mostrar como a transposição do romance romântico-realista para o ambiente local produziu uma obra dividida entre a linha central do enredo e as relações sociais que apareciam nas margens da narrativa.
O desajuste da forma europeia não era apenas uma falha a ser corrigida. Ele passava a integrar os próprios materiais da literatura brasileira. A tarefa do escritor consistia em elaborar uma forma capaz de incorporar as ideias modernas sem perder de vista as relações entre proprietários e camadas subalternas.
Machado de Assis e a solução formal
Em Um Mestre na Periferia do Capitalismo, de 1990, Schwarz interpretou Memórias Póstumas de Brás Cubas a partir do princípio da volubilidade. A forma do romance, fundada na lógica das relações sociais, permite que a referência à civilização moderna apareça subordinada ao arbítrio do narrador.
A solução machadiana, nessa perspectiva, reorganiza impasses acumulados na tradição do romance brasileiro e produz uma crítica à estrutura de dominação do país e à ordem capitalista-burguesa. O estudo da obra madura de Machado levou Schwarz a reconstituir o processo de formação do romance brasileiro e a identificar um campo de problemas que permanece inscrito na tradição literária.
Esse campo não se resume à soma de soluções bem-sucedidas. Ele envolve dificuldades específicas, herdadas pelos escritores e transformadas de acordo com cada obra. No estudo comparativo entre Minha Vida de Menina, de Helena Morley, e Dom Casmurro, Schwarz identificou uma base comum nas relações sociais que estruturam as duas obras, embora em registros diferentes.
A matéria brasileira, portanto, não aparece como tema externo à literatura. Ela se manifesta na linguagem, nas tradições culturais, nos assuntos e nas situações elaboradas pelos escritores. Como escreveu Schwarz, “a figuração literária é um modo sui generis de pensar e investigar o mundo”.
Um programa para a crítica
A partir dessa concepção, Schwarz sugeriu que a crítica investigasse as diferentes maneiras pelas quais os escritores formalizaram a experiência brasileira. Entre os caminhos mencionados estão a rispidez de Graciliano Ramos, a reflexão sobre a preguiça em Mário de Andrade, a utopia modernista de Oswald de Andrade e o profetismo de Glauber Rocha, além de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.
A proposta não pretendia apenas reunir estudos sobre autores nacionais. Cada análise deveria especificar o sentido artístico, ideológico e político de uma solução formal e relacioná-la ao dinamismo do mundo contemporâneo. O conjunto poderia produzir uma visão da literatura brasileira diferente dos modelos convencionais de historiografia e não limitada às fronteiras nacionais.
Schwarz desenvolveu esse método em estudos sobre obras de Chico Buarque, Paulo Lins, Caetano Veloso, Francisco Alvim, Zulmira Ribeiro Tavares, Oswald de Andrade e Mário de Andrade. Também examinou o filme Cronicamente Inviável, de Sergio Bianchi, buscando identificar como obras contemporâneas reelaboravam aspectos da matéria brasileira.
Sua produção incluiu ainda debates e entrevistas. Em Seja como For, publicado em 2019, textos desse tipo aparecem ao lado dos ensaios e cobrem o período de 1976 a 2019. Para Schwarz, a entrevista permitia explicar argumentos, abordar questões adjacentes e acrescentar uma camada de autocomentário à obra crítica.
Atualidade da obra
A escrita de Schwarz explicita seus pressupostos teóricos e políticos e comenta, em diversas ocasiões, os próprios procedimentos de análise. Seus livros retomam temas centrais, acrescentam novos aspectos e relacionam assuntos que, observados em conjunto, formam uma perspectiva articulada sobre a literatura e a sociedade.
No discurso em que recebeu o título de professor emérito da Unicamp, em 2022, Schwarz discutiu mudanças recentes nos estudos literários, incluindo a presença de questões de raça, gênero e classe. Também defendeu uma crítica independente, voltada às obras e não aos autores.
A retomada de seus escritos, nesse sentido, não se limita à repetição de suas interpretações. Ela pode servir para enfrentar problemas ainda não resolvidos da crítica e da criação literária, retomando a relação entre as formas artísticas e as estruturas sociais que elas elaboram.


