SÃO PAULO — O monitoramento por rádio de telemetria ajudou equipes a localizar e capturar micos-leões-da-cara-preta para a primeira vacinação da espécie vivendo na natureza contra a febre amarela. A iniciativa ocorre em uma área de Mata Atlântica entre São Paulo e Paraná.
A Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) aplicou a vacina em três animais no Parque Nacional do Superagui, no litoral norte do Paraná, em julho. Em 28 de agosto, biólogos e veterinários retornaram à floresta para recapturar os micos — dois machos e uma fêmea adultos — e coletar sangue novamente. Os resultados sobre a resposta ao imunizante ainda serão conhecidos.
A vacinação utiliza uma adaptação da vacina feita para humanos, com vírus vivo atenuado. A expectativa é que uma única dose ofereça proteção por toda a vida, como ocorre com seres humanos. Outros seis micos devem receber a dose na segunda quinzena deste mês, no Parque Lagamar de Cananéia, no litoral sul de São Paulo.
A espécie tem cerca de 400 indivíduos na Mata Atlântica e é ameaçada de extinção. A bióloga Elenise Sipinski, da SPVS, afirmou que as ações de manejo são necessárias porque há poucos animais e não existem indícios de crescimento da população. Ela também destacou a sensibilidade dos primatas à febre amarela.
A doença foi registrada em bugios, saguis, macacos-pregos e micos-leões-dourados durante um surto entre 2017 e 2018, especialmente no Rio de Janeiro. A transmissão ocorre apenas pela picada de mosquitos infectados com o vírus.
Após o episódio, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz passaram a desenvolver uma possível vacina no Plano de Ação Nacional para a Conservação de Primatas da Mata Atlântica, coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Micos-leões-dourados também foram vacinados no final de 2020 por uma iniciativa da Associação Mico-Leão-Dourado.
O mico-leão-da-cara-preta, também chamado de mico-leão-caiçara, foi descoberto e identificado na década de 1990. A espécie pesa de 500 a 700 gramas e costuma viver em grupos de dois a seis integrantes. Segundo o biólogo Edson Montilha, da Fundação Florestal, não há registro de morte desses animais causada pela febre amarela, mas a vacinação acrescenta uma estratégia de conservação diante da possibilidade de novos surtos.
A SPVS e a Fundação Florestal monitoram diariamente alguns micos com colares ligados a sistemas de rádio de telemetria. A SPVS planeja capturar outros dois grupos para vacinação ainda este ano.


