O jornalista Xico Sá revisita, em “O Tesoureiro”, a investigação sobre o paradeiro de Paulo César Farias durante o período em que o tesoureiro de Fernando Collor estava foragido. O livro será publicado pela Todavia e narra uma cobertura marcada por telefonemas de madrugada, informantes e pistas espalhadas entre São Paulo, Maceió e outras cidades.
Em junho de 1993, Sá conta que acordava com frequência tomado pela pergunta sobre onde estava PC Farias. A cobrança também aparecia em conversas familiares e entre pessoas que acompanhavam o caso. Sua mãe, Maria do Socorro, telefonava de Juazeiro do Norte para o trabalho do filho e repetia a mesma dúvida.
Fontes e personagens da investigação
Entre os contatos do repórter estava Brigitte Montfort, codinome de uma fonte que ele conheceu na boate Coquetel Drink's, em Maceió. Em uma das ligações feitas durante a madrugada, ela respondeu: “Calma, meu bem, nada de novo no front da República de Alagoas”. O jornalista também descreve o gato Bulgakov e as noites de insônia associadas à busca.
A imagem pública de PC Farias aparece ligada às relações políticas e financeiras do governo Collor. Sá relembra os apelidos atribuídos ao tesoureiro, como dom Pablo e Paulinho Gasolina, além da informação da Polícia Federal de que ele teria desviado “Pelo menos US$ 1 bilhão”. O caso envolvia a arrecadação de recursos para a campanha e a circulação de dinheiro por contas no exterior e paraísos fiscais.
A Fiat Elba, comprada com recursos de contas de PC Farias para integrantes da equipe de Collor, tornou-se um dos símbolos documentados do escândalo. Antes de a CPI do Congresso revelar o episódio, Sá diz ter recebido uma carta anônima sobre a reforma de um apartamento de Collor no bairro do Farol, em Maceió. Ele seguiu as indicações do remetente e confirmou a ligação entre o tesoureiro e a obra.
O fragmento também descreve como o caso era acompanhado como uma novela, com audiência superior à do coronel José Inocêncio, personagem de “Renascer”, exibida pela TV Globo. Meses depois, PC Farias foi preso na Tailândia e condenado pelo STF no ano seguinte. Em 1996, foi encontrado morto ao lado de Suzana Marcolino. O crime permanece sem esclarecimento.
Sá situa a investigação em um período anterior à internet comercial, quando repórteres dependiam de deslocamentos, telefonemas, documentos e conversas com fontes. Para ele, a procura por PC Farias não era apenas a busca por um homem desaparecido, mas também uma tentativa de compreender a atuação do tesoureiro na política brasileira após a ditadura.


