A trajetória de Luis Alberto Albán Urbano resume a transição das Farc da luta armada para a política institucional. Aos 20 anos, ele entrou no grupo guerrilheiro; décadas depois, foi eleito deputado pelo departamento de Valle del Cauca e passou a representar no Congresso o partido criado após o Acordo de Paz de 2016.
Albán, conhecido nas Farc pelo pseudônimo Marcos Calarcá, foi preso na Bolívia e participou de negociações com o governo colombiano. Em novembro de 2017, recebeu a informação de que seria candidato à Câmara no ano seguinte. A entrada no Legislativo ocorreu em 2018, quando ele já havia completado 60 anos.
O desempenho nas urnas
As eleições legislativas de março de 2026 mostraram os limites eleitorais dos Comunes, nome adotado pela legenda em 2021. O partido não elegeu nenhum candidato e teve o pior resultado desde sua criação. A votação confirmou que a presença anterior no Congresso dependia, em grande parte, das cadeiras reservadas pelo acordo de paz.
Em 2018, os candidatos da sigla receberam pouco mais de 85 mil votos e chegaram ao Congresso porque dez cadeiras estavam garantidas ao partido. Em 2022, o mecanismo continuou valendo, embora a legenda tivesse ainda menos simpatizantes. Em 2026, sem a obrigação de manter uma representação fixa da ex-guerrilha, nenhum candidato foi eleito.
O desempenho local também recuou. Em 2019, a legenda somou 96.447 votos em 23 departamentos e Bogotá. Em 2023, foram 13.772 votos, queda de 85,7% em relação à eleição anterior, em 15 das 33 divisões administrativas do país.
A troca de nome não alterou esse quadro. Albán afirmou que a mudança para Comunes ocorreu porque “começava a crescer a estigmatização” contra o grupo. A decisão buscava preservar os ideais e os objetivos políticos da organização sem manter a associação direta com a antiga sigla armada.
O efeito político do acordo
Apesar da perda de espaço eleitoral, Albán não considera que o resultado represente o fracasso da negociação. Para ele, o pacto criou condições para a chegada de Gustavo Petro à Presidência, na primeira gestão de esquerda da história recente da Colômbia. A primeira versão do acordo foi rejeitada em um plebiscito e depois reformulada; o documento completou dez anos neste sábado (26).
Ángela Liliana Olaya Castro, diretora da Fundação Conflict Responses, avalia que o acordo criou um ambiente de expectativa por mudanças e ampliou as conversas sobre política em diferentes níveis. A cientista política também afirma que a quantidade de votos não é o único critério para medir os resultados do pacto.
Nas eleições de 2023, as Juntas Administradoras Locais concentraram 26,3% da votação total dos Comunes, segundo a Fundação Ideias para a Paz. Para Olaya, formas territoriais de organização, cooperativas e outras modalidades de participação passaram a reunir signatários que deixaram o partido.
Dificuldades da transição
A baixa votação já aparecia desde a primeira disputa eleitoral das Farc, em 2018. A legenda não conseguiu lançar candidato à Presidência. Rodrigo Londoño retirou sua candidatura dois meses antes da votação, citando problemas de saúde e ataques sofridos durante a campanha. Naquele momento, ele tinha cerca de 1% das intenções de voto.
A organização também enfrentou dificuldades para transformar a experiência militar em atuação partidária. Albán reconhece que faltava experiência e diz que o grupo teve oito anos para aprender. Durante seus dois mandatos, a prioridade foi aprovar leis para implementar o Acordo de Paz.
O ex-deputado afirma que a execução das medidas foi difícil durante o governo de Iván Duque, que comandou a Colômbia de 2018 a 2022 e era crítico das negociações. A expectativa de mudança com Petro, segundo Albán, não se confirmou: o partido continuou enfrentando resistência dentro do governo para avançar nas questões relacionadas à paz.
A história regional mostra que os resultados eleitorais de grupos armados desmobilizados variaram. No Uruguai, ex-integrantes dos Tupamaros participaram da criação do Movimento de Participação Popular, ligado ao ex-presidente José Mujica, em 1989. Em El Salvador, a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional chegou à Presidência em 2009, depois de permanecer por anos como a segunda força política.
Na Colômbia, uma tentativa anterior de organização partidária foi a União Patriótica, criada em 1985 pelas Farc e outros grupos de esquerda. A sigla tornou-se a terceira força política nas eleições de 1986, mas quase todos os eleitos foram assassinados nos anos seguintes, segundo relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
Ao avaliar o período posterior ao acordo, Albán afirma que os Comunes tiveram dois mandatos com dez integrantes no Congresso, cinco no Senado e cinco na Câmara dos Representantes. O partido, diz ele, avançou na integração social e obteve reconhecimento, mas esse reconhecimento não se converteu em votos.


