A Cancc, organização formada por cubano-americanos, prepara projetos para uma possível transição política em Cuba, incluindo uma proposta de Bolsa de Valores e comitês voltados à infraestrutura energética e à segurança alimentar. As discussões ocorrem entre famílias abastadas da Flórida, que avaliam como poderiam participar da reconstrução da ilha.
O planejamento inclui reivindicações sobre terras nacionalizadas, além de propostas para recuperar atividades agrícolas e industriais. Nicolás Gutiérrez, presidente da Associação Nacional de Proprietários de Engenhos Açucareiros de Cuba, afirma que antigas áreas de produção podem voltar a ser utilizadas para açúcar, etanol, cogeração, painéis solares ou sistemas de purificação de água.
“Precisamos que elas comecem a produzir, precisamos que seja pago um salário justo aos trabalhadores cubanos”, disse Gutiérrez, ao defender que a retomada das atividades tenha impacto sobre a economia da ilha.
Propriedade e investimentos
Os títulos de propriedade ocupam posição central nos planos dos exilados. Um dos participantes, Orizondo, afirma que não pretende retirar famílias que vivem nas áreas reivindicadas, mas exige restituição ou indenização pelas terras tomadas pelo governo cubano. Ele relata ter trabalhado em uma fazenda durante cinco anos com o pai antes de perdê-la.
Orizondo também defende a entrada de capital e tecnologia estrangeiros na agricultura. Na avaliação dele, esses recursos são necessários para elevar a produção de alimentos e reduzir a dependência cubana das importações.
O governo cubano descreve as reivindicações como ressentimento de antigos proprietários rurais. A administração da ilha também sustenta que os exilados não teriam aceitado as reformas agrárias que transferiram terras a trabalhadores ou ao Estado.
Dúvidas sobre a transição
A comunidade de exilados se opõe ao governo comunista desde que Fidel Castro (1926-2016) assumiu o poder em Cuba, em 1959, expropriou terras e nacionalizou empresas de famílias cubano-americanas. Ao longo do tempo, esses grupos recorreram à influência política e econômica na Flórida para tentar influenciar a política de Washington em relação à ilha.
Sixto afirma que o momento atual se diferencia de iniciativas anteriores pelo empenho do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em pressionar por uma mudança radical em Cuba. Ele também diz que os empresários mantêm contatos influentes, incluindo pessoas próximas ao secretário de Estado americano, Marco Rubio.
Analistas consideram prematuras as reuniões porque não está definido como ocorreria uma eventual mudança. Entre as possibilidades discutidas estão uma operação militar americana, como a realizada na Venezuela em janeiro, ou um novo acordo econômico com o governo cubano.
Bustamante avalia que as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em novembro, e o envolvimento do governo Trump na guerra contra o Irã reduzem o interesse por novas ações externas. Para ele, é difícil imaginar uma intensificação além do atual regime de sanções.
Custos e obstáculos
Os participantes da Cancc consideram superficiais as reformas econômicas anunciadas em Havana e dizem que elas não oferecem garantias suficientes aos investidores. As mudanças eliminam o limite de trabalhadores nas empresas privadas, permitem a contratação e a demissão direta de cubanos e autorizam a propriedade de várias empresas por uma mesma pessoa, inclusive cidadãos cubano-americanos.
O governo cubano não se pronunciou especificamente sobre a Cancc. Seus integrantes, porém, tradicionalmente rejeitam a ideia de que críticos instalados em Miami possam determinar o futuro da ilha.
A reconstrução também exigiria recursos elevados. A reparação da rede elétrica é estimada entre US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões, cerca de R$ 40 bilhões a 50 bilhões. Enquanto os projetos são discutidos, a população cubana enfrenta escassez de alimentos, água, combustível e medicamentos.


