SÃO PAULO — A apreensão de R$ 510 mil em dinheiro vivo com Valéria Rodrigues Linhares no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, está entre os elementos considerados pelo ministro Flávio Dino ao analisar uma investigação da Polícia Federal. O episódio ocorreu em 25 de agosto de 2026. Dino determinou que a apuração fosse transferida para o Supremo Tribunal Federal (STF).
Na investigação, a PF descreve uma estrutura que teria dividido tarefas entre o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), Valéria e Mariângela Fialek, conhecida como “Tuca” e então servidora da Câmara dos Deputados. A polícia sustenta que o grupo atuaria na captação de causas, na preparação de documentos, na formalização de contratos e em contatos com ministros de tribunais superiores.
Negócios e contatos com magistrados
Segundo os investigadores, Cezinha teria usado a posição ocupada no Congresso para transmitir a clientes a percepção de que poderia influenciar decisões judiciais. A PF atribui a ele contatos diretos com ministros e a realização de despachos, definidos na investigação como reuniões ou conversas sobre processos. Na decisão, Flávio Dino afirma que o parlamentar teria recorrido à “ascendência da função parlamentar” para negociar essa suposta influência.
Valéria Rodrigues Linhares, advogada apontada pela PF como mulher do deputado, teria redigido, revisado e assinado contratos de prestação de serviços e documentos relacionados a cessões de créditos de valores milionários. Esses instrumentos, segundo a investigação, formalizariam pagamentos ligados às causas judiciais.
Mariângela Fialek teria ficado responsável pela captação de processos e pela elaboração de memoriais e outras peças jurídicas. O conteúdo do celular da advogada, periciado na primeira fase da operação, foi citado pela PF como base para as novas medidas.
Mensagens analisadas pelos investigadores registram tratativas sobre casos em tramitação no STF. Na defesa da prefeita de Beberibe (CE), contratos previam R$ 500 mil em caso de decisão favorável. Em outro caso, envolvendo um ex-secretário de Belford Roxo (RJ), havia previsão de R$ 1 milhão e aditivos de até R$ 2 milhões condicionados à revogação da prisão preventiva.
Medidas autorizadas
Dino autorizou buscas nos endereços residenciais e profissionais do deputado e da advogada em Brasília e em São Paulo, além da apreensão de bens de valor, veículos e dinheiro em espécie acima de R$ 10 mil. O ministro rejeitou, porém, a busca no gabinete do parlamentar na Câmara dos Deputados por considerar que não havia elementos concretos para justificar a medida no local de trabalho legislativo.
A PF afirma que a movimentação de recursos em espécie poderia indicar pagamentos de honorários fora do sistema bancário tradicional. A representação e a decisão de Dino ressaltam que os ministros e juízes mencionados nas conversas não são investigados nem suspeitos de irregularidades.
A defesa de Cezinha declarou que ele está à disposição das autoridades e confia que “os fatos serão devidamente esclarecidos no devido processo legal”. Também afirmou que o deputado prestará os esclarecimentos necessários e que a defesa deve ter acesso aos elementos da investigação e à íntegra do processo.


