O governo de Binyamin Netanyahu ampliou a agenda de assentamentos israelenses na Cisjordânia às vésperas da eleição marcada para 27 de outubro. O Ministério da Habitação abriu, em agosto, uma licitação para 1.200 unidades na área de E1, nos arredores de Jerusalém, e lançou outra, duas semanas atrás, para mais 2.100 moradias. A apresentação das propostas foi marcada para dois dias antes da votação.
E1 é uma faixa de terra que, caso seja ocupada pelos projetos, dividirá a Cisjordânia em duas partes e a separará de Jerusalém Oriental. Por duas décadas, governos israelenses evitaram avançar no local diante da reação internacional e da avaliação de que a medida prejudicaria a formação de um Estado palestino.
A organização Peace Now afirma que as ações têm o objetivo de criar mudanças difíceis de reverter por um eventual novo governo. Uma das licitações de E1 chegou a ser adiada por preocupações de uso eleitoral. Em paralelo, o governo apresentou outras iniciativas para ampliar os assentamentos e reforçar o controle israelense sobre o território palestino.
Medidas territoriais e disputa eleitoral
O Ministério das Finanças, comandado por Bezalel Smotrich, solicitou 36 milhões de shekels (R$ 58,8 milhões) para o registro de terras na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. A Peace Now considera que o procedimento, ilegal em territórios ocupados, pode facilitar a apropriação de áreas pelo Estado israelense.
Em agosto, colonos retornaram a Kadim, um dos quatro assentamentos do norte da Cisjordânia desmantelados em 2005. O governo anunciou planos para 19 assentamentos na região, considerada uma das poucas áreas do território com continuidade relativa entre comunidades palestinas. Os assentamentos são ilegais segundo o direito internacional.
Smotrich afirmou que E1 sepultaria a ideia de um Estado palestino. Em setembro, na inauguração de um novo assentamento, disse que a coalizão preparava a expansão para 1 milhão de colonos, contra os 750 mil que vivem atualmente na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Em fevereiro, também defendeu que o próximo governo incentivasse a migração de palestinos.
As pesquisas indicam uma disputa acirrada. O bloco com maior possibilidade de substituir Netanyahu é formado por partidos de oposição liderados pelo ex-general Gadi Eisenkot. Seus integrantes têm posições variadas sobre a Cisjordânia, que vão do apoio ao desmantelamento de postos avançados ilegais à defesa da anexação do território.
Diplomatas avaliam que uma coalizão liderada por Eisenkot poderia adotar medidas mais duras contra a violência de colonos e liberar parte das receitas palestinas retidas por Israel. Ainda assim, uma pesquisa de agosto do Jewish People Policy Institute indicou que 55% dos judeus israelenses apoiavam a manutenção do controle sobre todos os assentamentos.
Violência e deslocamentos
A expansão territorial ocorreu junto com o aumento dos ataques de colonos contra palestinos. O Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários informou que o número registrado em 2026 caminha para o maior desde o início da coleta de dados.
Desde que o partido de Netanyahu chegou ao poder, em 2022, foram registrados 6.100 ataques contra palestinos e suas propriedades. Mais de 6.500 palestinos e 132 comunidades foram deslocados total ou parcialmente, segundo o órgão.
As restrições militares, a pressão econômica e a retenção de receitas tributárias palestinas alteraram a rotina no território. Postos de controle tornaram trajetos curtos em deslocamentos de várias horas, enquanto postos de assentamentos dificultaram o acesso às terras. A Autoridade Palestina passou a pagar aos servidores apenas uma fração dos salários, e muitas escolas funcionam somente três dias por semana.
No vilarejo de Qusra, a casa de Loui Ridi foi cercada por colonos, que interromperam o fornecimento de eletricidade e água. Depois da repercussão internacional, militares israelenses afastaram os colonos, mas instalaram um posto de controle diante da residência e limitaram, por 30 dias, a entrada e a saída da família. As restrições foram posteriormente flexibilizadas, embora os colonos continuem nas proximidades.
No início da semana, militares israelenses afirmaram que mais de 100 colonos participaram de um ataque a Jalud, com incêndios em prédios e carros. Segundo a organização Yesh Din, apenas 3% das investigações sobre crimes cometidos por israelenses contra palestinos na Cisjordânia resultaram em condenações entre 2005 e 2024.
Para a Peace Now, a violência também favoreceu a criação de novos assentamentos, incluindo Metzoke Eretz, instalado no local ou nas proximidades de comunidades deslocadas. A avaliação de analistas é que a disputa eleitoral pode definir o ritmo de novas medidas, mas projetos já iniciados dificilmente serão revertidos de maneira significativa.


