Mulheres representam quase 53% do eleitorado brasileiro, o equivalente a 9 milhões a mais que os homens, mas ainda estão mais indecisas sobre a eleição presidencial de 2026. Dados do Datafolha indicam que 26% delas não escolheram um candidato, ante 14% dos homens. A média geral é de 21%.
A diretora do instituto, Luciana Chong, afirma que as mulheres costumam levar mais tempo para definir o voto por serem mais cuidadosas, atarefadas e demorarem mais a entrar na discussão eleitoral. O levantamento de julho também mostrou que elas são menos influenciadas por amigos, filhos, líderes religiosos e cônjuges.
Sem uma mulher entre as candidaturas mais competitivas à Presidência, as eleitoras ouvidas em diferentes cidades apresentaram prioridades distintas. Liliane Ávila, 43, empresária de Belo Horizonte, ainda não decidiu seu voto. Mãe de dois filhos, responsável por uma empresa de uniformes e fantasias e pelos cuidados com a mãe idosa, ela diz que propostas voltadas a creches, combate à violência obstétrica e apoio a empreendedoras podem influenciar sua escolha.
Bianca Gomes do Prado, 30, cria sozinha o filho de 9 anos no Recife. Beneficiária do Bolsa Família, recebe R$ 650 mensais e faz trabalhos informais para complementar a renda. Ela votará em Lula e cita educação, segurança e combate ao racismo como prioridades para o país.
Entre as eleitoras, Flávio Bolsonaro registra rejeição de 50%, enquanto Lula tem 43%, conforme o Datafolha. Na pesquisa de setembro, Lula aparecia 9 pontos à frente de Flávio nesse grupo. Entre os homens, Flávio tinha vantagem de 2 pontos.
Para a professora Flavia Biroli, da UnB, a maior rejeição feminina à direita e à extrema direita se relaciona, entre outros fatores, à percepção mais acentuada sobre o papel do Estado em áreas como educação e saúde.
Diferentes visões políticas
Marlise Rosler, 53, assessora política em Guaíba, no Rio Grande do Sul, declara voto em Flávio, embora faça críticas ao candidato. Casada, católica e mãe de dois filhos, ela defende maior participação feminina na política e atribui parte de sua derrota como candidata a vereadora à falta de financiamento adequado.
A educadora Ana Flavia dos Santos, 39, de Itumbiara (GO), rejeita a ideia de escolher entre apenas duas opções. Ela votará em Ronaldo Caiado e diz ter visto o candidato valorizar mulheres e colocar a educação em primeiro lugar. Mãe de dois adolescentes, também cuida da avó e trabalha na coordenação estadual de ensino da região.
A presença feminina no poder permanece limitada. Mulheres ocupam 17,8% das cadeiras da Câmara federal, e o Brasil aparece na 133ª posição entre 183 países no Mapa Mulheres na Política de 2025, elaborado pela União Interparlamentar e pela ONU Mulheres.
As 15 entrevistadas rejeitaram a ideia de substituir a escolha individual pelo voto da família, independentemente de sua posição política. O direito feminino ao voto foi conquistado em 1932, ainda com restrições.
Para a historiadora Heloisa Starling, mulheres progressistas e conservadoras participam da vida política brasileira desde o século 19. Ela afirma que a reivindicação de direitos movimenta a democracia e que as mulheres representam uma ameaça em ambientes misóginos por sua trajetória política e pela discriminação que enfrentam.


