A série Voto das Mulheres, da fotojornalista Gabriela Biló, transforma relatos de mulheres de diferentes perfis em retratos que combinam fotografia e imagens produzidas por inteligência artificial. O trabalho parte de entrevistas sobre o que influencia suas escolhas eleitorais e sobre o que esperam do Brasil.
A produção foi realizada em um momento de disputa polarizada nas eleições de 2026. As mulheres representam 51,5% da população e 53% do eleitorado. Também são maioria entre os indecisos: 29% ainda não haviam decidido o voto, ante 16% dos homens. Depois das eleições de 2022, elas ocupavam 18% das cadeiras da Câmara e 15% das do Senado.
No Datafolha de 8 a 10 de setembro, Lula (PT) tinha 11 pontos de vantagem sobre Flávio Bolsonaro (PL) entre as eleitoras. Em maio, a diferença era de 15 pontos. Entre os homens, Flávio Bolsonaro aparecia 4 pontos à frente.
Da entrevista à imagem
As respostas das entrevistadas serviram de base para a criação de prompts, instruções escritas usadas para orientar o sistema de inteligência artificial. O Midjourney foi utilizado para gerar cenários associados ao imaginário de cada participante.
Nas primeiras tentativas, a combinação das palavras “Brasil” e “mulheres” levou o sistema a produzir imagens com elementos que não estavam previstos, como favelas e mulheres negras com expressões de tristeza. Para reduzir esse chamado preconceito algorítmico, os termos foram retirados dos prompts, que também foram traduzidos para o inglês. A mudança buscou ampliar a variedade de resultados, considerando que as inteligências artificiais têm o inglês como idioma de origem.
Cada entrevistada avaliou a imagem gerada e confirmou se ela correspondia ao próprio imaginário. Depois, a imagem apareceu na tela de um computador e foi fotografada. No mesmo fotograma, a participante também foi retratada. A sobreposição das duas exposições fundiu a fotografia da mulher ao cenário criado pela IA.
O procedimento resultou em retratos nos quais as participantes dividem o enquadramento com imagens relacionadas a seus relatos.
Os cinco retratos
Liliane Vilela, 43, é empresária e mãe de dois filhos em Belo Horizonte (MG). Seu prompt descreveu uma paisagem montanhosa vista de um mirante de pedra, com uma cadeira de madeira, flores, um manto de veludo e uma coroa artesanal. O cenário foi concebido sem rostos ou figuras humanas identificáveis.
Ana Flávia Santos, 39, é educadora, separada e mãe de dois filhos. Ela vive em Itumbiara (GO). A imagem criada para seu retrato mostra, de cima, uma mesa rústica com alimentos e livros, instalada em uma área verde junto a um rio. Pessoas aparecem ao redor como silhuetas, sem rostos visíveis.
Bianca Gomes do Prado, 30, é cozinheira e mãe solo em Recife (PE). Seu cenário reúne mar, praia, coqueiros e os degraus de um edifício universitário. Sobre os degraus, foram incluídos uma mochila aberta, zines punk e livros acadêmicos. Ao fundo, cinco crianças sem rosto correm juntas.
Heloísa Starling, 70, historiadora e professora titular da Universidade Federal de Minas Gerais, foi associada a uma biblioteca circular que também funciona como sala de aula. O prompt descreveu estantes do chão ao teto, estudantes reunidos em torno de uma mesa e notas musicais luminosas. A composição foi inserida em dois círculos luminosos sobre um fundo preto, como se fosse vista por lentes de óculos.
Marlise Rosler, 53, assessora, casada e mãe de dois filhos, é de Guaíba (RS). Para ela, o cenário escolhido foi o Congresso Nacional, em Brasília, representado por suas torres e pela esplanada ao pôr do sol. A imagem priorizou a arquitetura e não incluiu figuras humanas identificáveis.
Em todos os casos, os prompts recorreram a contrastes fortes de luz e sombra, com referências à fotografia documental em filme de 35 mm. A técnica de múltipla exposição reuniu esses cenários às imagens das entrevistadas.


