A Regeneron Pharmaceuticals prevê iniciar em breve os primeiros ensaios clínicos em humanos do ALN-6457, substância experimental que será usada no tratamento paliativo do piloto e influenciador Lito Sousa, 59, diagnosticado com a doença de Creutzfeldt-Jakob. A farmacêutica ainda não informou uma data para o início dos estudos.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou na última sexta-feira (4) a importação do composto em caráter excepcional. A previsão da família era que a substância chegasse entre esta sexta-feira (11) e domingo (13), após um prazo de sete a nove dias.
A empresa afirmou que pretende publicar em futuro próximo os resultados dos estudos pré-clínicos, realizados em células e animais. Segundo a Regeneron, os dados disponíveis dão respaldo ao início dos ensaios e ao uso em seres humanos, mas ainda não demonstram que o ALN-6457 funcione contra a doença.
Como o tratamento funciona
A estratégia consiste em reduzir a quantidade da proteína priônica normal, conhecida como PrP, disponível nas células. Essa proteína fica na superfície dos neurônios. Quando assume uma forma anormal, passa a induzir outras proteínas normais a fazerem o mesmo. O acúmulo dessas proteínas anormais leva à morte dos neurônios.
O ALN-6457 utiliza uma molécula de RNA chamada siRNA, ou RNA de interferência. Ela atua sobre o RNA mensageiro produzido a partir do gene PRNP, responsável pelas instruções para a fabricação da PrP. Com a interferência nessa mensagem, as células passam a produzir menos proteína priônica normal.
A intenção é diminuir a formação de novas proteínas anormais e desacelerar a progressão da doença. O mecanismo não elimina imediatamente as proteínas já formadas nem reverte as lesões provocadas pela enfermidade. “A ideia é lentificar a progressão da doença priônica”, afirmou o neurologista José Guilherme Schwam Júnior, da Clínica Montpellier e do Hospital Israelita Albert Einstein, ambos em Goiânia.
Ainda será necessário verificar em humanos quanto da proteína pode ser reduzido com segurança e se essa diminuição desacelera efetivamente a doença. Uma revisão publicada em 2017 na revista PLOS Pathogens indicou que a PrP participa da manutenção da mielina periférica e da comunicação entre os neurônios. A maior parte dessas funções foi identificada em animais, e o papel fisiológico completo da proteína continua desconhecido.
Por isso, os possíveis efeitos da redução da PrP permanecem incertos. Também não há dados clínicos suficientes sobre efeitos adversos, já que a substância não passou por ensaios em humanos. Sintomas como mioclonias, dificuldades motoras e alterações na fala provavelmente não seriam revertidos pela estratégia, segundo Schwam.
Acesso à substância
A Regeneron mantém um programa de acesso gerenciado para o uso compassivo de potenciais medicamentos ainda em testes. O mecanismo permite que pacientes sem outras opções terapêuticas solicitem substâncias que não foram aprovadas nem estudadas em humanos.
A farmacêutica informou que as solicitações são avaliadas por um comitê de revisão, que define a elegibilidade conforme critérios específicos não divulgados. Também é necessária autorização da autoridade regulatória competente antes da administração do tratamento.
Não foi informado se Lito será o primeiro paciente a receber o ALN-6457 nem se outras pessoas já tiveram acesso à substância. O Hospital Israelita Albert Einstein, que solicitou o tratamento, orientou que fossem buscadas informações com a família. A Regeneron também não divulgou quantos pedidos recebeu ou aprovou pelo programa.



