O café reúne centenas de compostos bioativos, e seus efeitos não se limitam à cafeína ou à sensação de alerta. A bebida pode interagir com o sistema digestivo, o microbioma intestinal, nutrientes e medicamentos — inclusive quando é consumida na versão descafeinada.
Remédios e absorção de nutrientes
O café pode reduzir a absorção da levotiroxina, usada no tratamento da tireoide, e do alendronato, utilizado contra a osteoporose. A cafeína também pode retardar o metabolismo da clozapina, um antipsicótico, elevando sua concentração no sangue. No sentido inverso, a ciprofloxacina pode diminuir a velocidade de metabolização da cafeína, fazendo com que o café permaneça por mais tempo no organismo.
A bebida também interfere na obtenção de ferro a partir dos alimentos. Tomar café durante uma refeição pode reduzir substancialmente a absorção do ferro não-heme, encontrado principalmente em alimentos de origem vegetal. O mecanismo está associado aos polifenóis, entre eles os ácidos clorogênicos, que podem se ligar ao ferro no trato digestivo.
Esse efeito é mais relevante para pessoas com níveis baixos de ferro ou que dependem muito de fontes vegetais do mineral. A informação, porém, não significa que todas as pessoas devam deixar de tomar café no café da manhã.
Colesterol, pressão e circulação
Entre os componentes do café estão os diterpenos cafestol e kahweol, que podem elevar o colesterol total e o LDL, conhecido como colesterol ruim. Em estudos de curto prazo, os mesmos compostos reduziram a lipoproteína (a), resultado que pode indicar menor risco de ataque cardíaco ou derrame.
Outros elementos da bebida, como os ácidos clorogênicos, podem diminuir modestamente a pressão arterial e melhorar o funcionamento dos vasos sanguíneos. Ainda não está definido, portanto, qual é o efeito geral do café sobre os indicadores de saúde cardíaca.
Reações no intestino e no estômago
Cerca de três em cada dez pessoas relatam vontade de ir ao banheiro logo depois de tomar café. A reação ocorre rapidamente tanto com a bebida comum quanto com a descafeinada, e os compostos responsáveis ainda não foram identificados. O cólon também pode estar mais ativo pela manhã, período em que muitas pessoas tomam a primeira xícara.
Leite e alguns adoçantes sem açúcar podem estimular o intestino, especialmente em grande quantidade. O café ainda pode ativar o pâncreas a liberar tripsina, enzima envolvida na digestão de proteínas, mesmo quando não há alimentos para serem digeridos. A bebida também influencia hormônios ligados à fome e à saciedade, mas os estudos não mostram de modo consistente se isso leva a comer mais ou menos.
Em algumas pessoas, o café agrava o refluxo. O retorno do ácido estomacal ao esôfago pode estar relacionado não apenas à azia, mas também a tosse, chiado no peito e outros sintomas respiratórios quando atinge a garganta e as vias aéreas.
Olhos, ouvidos e enxaqueca
A cafeína pode elevar temporariamente a pressão dentro dos olhos em algumas pessoas com glaucoma ou hipertensão ocular. Nessas condições, a pressão já pode estar aumentada, e algumas pessoas podem ser orientadas a limitar café e cafeína para proteger o nervo principal do olho.
Há também uma condição chamada disfunção da trompa de Eustáquio patulosa, na qual a estrutura que liga o ouvido médio à parte posterior do nariz permanece anormalmente aberta. Isso pode fazer com que a própria voz ou a respiração sejam ouvidas de forma muito intensa. Pessoas com essa condição às vezes são aconselhadas a reduzir bebidas com cafeína e a manter-se hidratadas. As evidências diretas de que o café cause o problema, no entanto, são poucas.
A relação com a enxaqueca varia. A cafeína pode aliviar uma crise, mas o consumo excessivo ou uma redução repentina em relação ao hábito pode desencadeá-la em algumas pessoas.
Café e microbioma
Parte dos ácidos clorogênicos não é absorvida no intestino delgado e chega ao cólon, onde as bactérias os transformam em outros compostos. Carboidratos complexos e melanoidinas, produtos da torrefação, também podem alcançar essa região e ser fermentados pelas bactérias intestinais.
Estudos pequenos com seres humanos indicam que o café pode alterar a composição do microbioma intestinal. As evidências ainda estão em desenvolvimento, por isso é cedo para classificar a bebida como probiótico.
Os efeitos observados mostram que a cafeína e o estado de alerta são apenas parte da ação do café. Os demais compostos da bebida podem produzir respostas variadas no sistema digestivo, na absorção de nutrientes, no metabolismo de medicamentos e em outros sistemas do organismo.


