A redução da convivência cotidiana com crianças tem deixado parte dos adultos insegura sobre como conversar, brincar, impor limites ou acolher uma birra. A mudança ocorre em um cenário de queda da fecundidade e de aumento no número de casais sem filhos no Brasil.
Dados do IBGE mostram que a taxa de fecundidade caiu de 6,28 filhos por mulher, em 1960, para 1,55, o menor patamar da história. Entre 2000 e 2022, a proporção de casais sem filhos passou de 14,9% para 26,9%.
Menos convivência, mais dúvida
Com menos irmãos, primos, sobrinhos e outras crianças por perto, muitos adultos perderam a prática de interagir com elas. A distância também aparece nos espaços compartilhados: preocupações com a segurança e a menor interação entre vizinhos e comunidade reduziram as ocasiões em que adultos e crianças circulam juntos.
Nesse contexto, cresceram os ambientes voltados exclusivamente a maiores de idade, mesmo quando não há álcool ou conteúdo impróprio envolvido. Hotéis adults-only, restaurantes que não recebem menores de 14 anos e áreas child-free em aviões são citados como exemplos de uma busca por silêncio e tranquilidade.
A insegurança também está relacionada à transformação das ideias sobre educação. Discussões recentes passaram a valorizar o diálogo, o acolhimento e o respeito à autonomia, em lugar de práticas baseadas no medo e na violência. Para Maya Eigenmann, neuro pedagoga e cocriadora da educação positiva no Brasil, essa abordagem não elimina os limites.
“Não é sobre permissividade. Mas, se eu entendo que se trata de um filhote humano que está aprendendo a se desenvolver e a se comportar, percebo que devo ajudar, e não reprimir”, afirmou Maya.
O papel do adulto
Crianças podem chorar, fazer barulho, testar limites e ter birras porque ainda estão aprendendo a compreender sentimentos, lidar com frustrações e viver em sociedade. Estudos mostram que exigir comportamentos ou responsabilidades incompatíveis com a idade pode prejudicar o bem-estar emocional e o desenvolvimento.
Por isso, a paciência deve partir do adulto, que teve mais tempo para desenvolver essas habilidades. Em uma rotina acelerada, porém, pode surgir a tentação de oferecer uma tela para interromper uma birra ou evitar responder a perguntas repetidas. A convivência exige disposição para estar com as crianças.
Essa relação também pode reaproximar os adultos da curiosidade e da criatividade. Letrux, cantora, compositora e escritora, afirmou que estar perto de crianças permite contato com uma forma mais livre de perceber o mundo, sem os medos, neuroses e traumas acumulados pelos adultos.
Conversa antes do conflito
Quando uma criança mexe em algo que não deveria ou desrespeita alguém, uma alternativa é conversar primeiro com os pais. Entender como eles costumam agir e quais combinados fazem sentido pode evitar constrangimentos.
Também é importante incluí-la na interação, explicar o motivo de um limite e falar com respeito. A ideia de que crianças não compreendem o que acontece ao redor é equivocada: muitas entendem mais do que conseguem expressar em palavras.
Não há problema em querer mais ou menos intimidade com crianças ou em preferir momentos apenas entre adultos. A dificuldade com uma prima ou com o filho de um amigo também pode ocorrer. O cuidado é não transformar uma experiência individual em uma regra para todas as crianças, que têm o direito de existir, brincar e participar da vida em comunidade.


