O Fundo Agbara selecionou mulheres negras para receber férias financiadas como parte de uma discussão sobre tempo, cuidado e condições econômicas para descansar. Na segunda edição do edital Descansa, Nêga, mais de 2.700 mulheres concorreram a cinco vagas; as inscrições terminaram em 31 de agosto.
A iniciativa foi criada depois que a organização passou a questionar quem consegue descansar no Brasil. O Agbara atua principalmente com transferência de recursos para negócios, carreiras e organizações lideradas por mulheres negras, além de produzir dados.
O descanso como política de cuidado
A assistente social Nadjane Cristina dos Santos, 33, foi selecionada na primeira edição do edital após relatar ansiedade e cansaço relacionados ao trabalho com direitos humanos. Integrante do coletivo Incomode, que atua em territórios do subúrbio de Salvador, ela passou a atender psicossocialmente mulheres vítimas de violência doméstica.
A rotina reativou lembranças de uma violência que Nadjane sofreu. Ela recebeu uma viagem de férias com tudo pago e escolheu como acompanhante uma mulher negra vítima de violência doméstica que atendia e queria conhecer o Rio de Janeiro. No primeiro dia, as duas permaneceram no quarto do hotel, conversando.
“Eu estava tentando mudar o mundo, mas esquecendo que também precisava mudar minha casa, meu corpo, meu psicológico”, disse Nadjane. Depois de 12 dias no Rio de Janeiro, afirmou ter voltado renovada e com disposição para retomar sonhos. Também relatou ter percebido que a família conseguia se organizar sem ela. Atualmente, cursa o segundo semestre do curso de direito.
Para Aline Odara, fundadora e diretora-executiva do Fundo Agbara, o descanso precisa ser tratado como uma dimensão da prosperidade. “Talvez uma das formas mais radicais de pensar prosperidade para uma mulher negra seja fazer com que ela passe um tempo sem produzir nada”, afirmou.
Tempo e desigualdade
Um estudo da Organização Internacional do Trabalho publicado em novembro de 2025 indicou que mulheres negras dedicam, em média, 22,4 horas por semana a atividades de cuidado. O número é superior às 20,7 horas registradas entre mulheres brancas e às cerca de 12 horas atribuídas a homens negros e brancos.
O levantamento relaciona essa sobrecarga a menores taxas de participação das mulheres negras no mercado de trabalho e a maiores taxas de informalidade. Dados do Agbara mostram que, em 2022, mulheres negras receberam 59% da renda dos homens.
O Fundo Agbara associa o edital ao conceito de bem viver, relacionado a segurança, moradia, alimentação saudável, liberdade religiosa, autonomia sobre o corpo, cuidado, descanso, tempo e possibilidade de sonhar. A proposta combina referências de cosmovisões indígenas andinas e práticas antigas de comunidades negras.
A pesquisadora Juliana Gonçalves, mestre em estudos culturais pela Universidade de São Paulo e cofundadora da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, afirma que o bem viver não substitui a luta contra a violência e o racismo. Para ela, a ideia questiona se sobreviver deve ser o limite das possibilidades destinadas às mulheres negras.
Redes de solidariedade
Odara diz que não basta recomendar descanso sem garantir recursos para cuidados, organização da casa e manutenção financeira durante o período sem trabalho. O Agbara considera que, em uma sociedade capitalista, são necessárias condições econômicas para alcançar o bem viver, mas defende que isso não seja uma tarefa individual.
Gonçalves também afirma que o bem-estar de uma pessoa não se sustenta quando a comunidade ao redor enfrenta violência e falta de saneamento ou quando outras mulheres precisam se exaurir para que uma consiga descansar. Nesse sentido, financiar férias para mulheres negras ultrapassa a ideia de autocuidado individual.
A pesquisadora cita quilombos, terreiros, associações, organizações comunitárias, fundos coletivos e outras estratégias de solidariedade como formas históricas de organização das mulheres negras. Para ela, o descanso ganha dimensão política quando contesta a expectativa de que seus corpos existam apenas para produzir, servir, cuidar e suportar.
O edital brasileiro tem correspondências nos Estados Unidos. O Octavia Fund financia retiros e períodos sabáticos para mulheres negras desde 2022. A Open Horizon, fundação filantrópica familiar sediada na Virgínia e criada em 2019, lançou no ano passado o Stargazer Sabbatical Pilot, voltado a lideranças selecionadas.
Tricia Hersey, fundadora do Nap Ministry e autora de “Descansar é Resistir”, defende que dormir e descansar podem ser atos de resistência ao capitalismo e ao racismo estrutural. A discussão parte da exploração histórica do corpo negro como força de trabalho e da expectativa de que a mulher negra seja capaz de suportar tudo.


