A aspirina deixou de ser recomendada para prevenir o primeiro infarto ou acidente vascular cerebral em pessoas idosas, mas continua sendo usada por muitos americanos nessa situação. Diretrizes publicadas em 2019 pelo Colégio Americano de Cardiologia e pela Associação Americana do Coração passaram a desaconselhar esse uso em pessoas com 70 anos ou mais. A Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos adotou uma orientação ainda mais restritiva, contra a prevenção primária a partir dos 60 anos.
A recomendação não se aplica da mesma forma a quem já teve infarto, acidente vascular cerebral ou passou por procedimentos como colocação de stent ou cirurgia de ponte de safena. Nesses casos, estudos indicam que uma dose baixa diária reduz a probabilidade de um novo episódio. Para quem nunca teve esses eventos, porém, os benefícios preventivos são mínimos e os riscos incluem sangramento gastrointestinal e, mais raramente, hemorragia cerebral.
Timothy Anderson, da Universidade de Pittsburgh, afirma que o risco de sangramento cresce com a idade. Ele recomenda que o paciente converse com o médico sobre a continuidade do tratamento. Muitos idosos começam a tomar aspirina sem orientação, na tentativa de reduzir riscos cardiovasculares, embora Anderson diga que medicamentos para pressão arterial e estatinas oferecem estratégias melhores para esse objetivo.
Antibióticos ainda aparecem em quase todas as consultas
A diverticulite não complicada também passou a ser tratada de maneira diferente. Em 2015, a Associação Americana de Gastroenterologia deixou de recomendar o uso rotineiro de antibióticos nesses casos, que representam a grande maioria. Ensaios clínicos indicaram pouco ou nenhum efeito sobre mortalidade, cirurgias, complicações ou recorrências.
Mesmo assim, uma análise de 70 mil consultas em 120 unidades do Departamento de Assuntos de Veteranos mostrou prescrições em 97% dos atendimentos, independentemente da existência de diretrizes. A idade média dos pacientes era de 63 anos. O tratamento padrão incluía fluoroquinolonas ou amoxicilina com clavulanato.
Jesse Sutton, farmacêutico e pesquisador do sistema de saúde de veteranos de Minneapolis, afirmou que os antibióticos podem causar náusea, vômito e diarreia, além de elevar o risco de infecção por C. difficile. O uso frequente também contribui para a resistência antimicrobiana, classificada pela Organização Mundial da Saúde como uma grande ameaça à saúde global.
Benzodiazepínicos
Os benzodiazepínicos, prescritos para insônia e ansiedade, podem afetar equilíbrio, coordenação e cognição. Entre os medicamentos estão diazepam, alprazolam, lorazepam, zolpidem e eszopiclona. Os efeitos podem contribuir para quedas, fraturas e acidentes de trânsito. A combinação com opioides pode provocar overdose, e o uso prolongado pode levar à dependência e à abstinência.
Uma análise publicada no Annals of Internal Medicine mostrou que, entre pessoas com mais de 65 anos, o uso caiu de 14% em 2015 para 11,5% em 2024. A redução, contudo, não avançou desde 2020. Entre pessoas com mais de 75 anos, o índice subiu de 12% em 2020 para cerca de 13% quatro anos depois. A dispensação em instituições de cuidados de longa permanência mais que dobrou, e cerca de um terço dos usuários tomava o medicamento havia mais de seis meses.
Mark Olfson, da Universidade Columbia, alertou que a interrupção não deve ocorrer de forma repentina ou sem acompanhamento. Michael Steinman, geriatra da Universidade da Califórnia em São Francisco, atribui a permanência de alguns tratamentos à demora na divulgação de descobertas e à incorporação de hábitos por profissionais e pacientes. “É fácil começar a usá-los, mas pode ser difícil parar”, afirmou.


