A mitomania pode continuar presente mesmo depois que as pessoas ao redor deixam de acreditar nas histórias contadas. Com o tempo, familiares, amigos, colegas ou eleitores podem passar a ouvir o relato como uma versão possível, sem necessariamente tratá-lo como verdadeiro.
A mudança costuma ocorrer após a repetição de contradições, inconsistências e acontecimentos que não se confirmam. Em vez de questionar cada afirmação, o círculo social aprende a decidir o que precisa ser checado e o que pode ser tolerado ou ignorado. Essa adaptação pode evitar confrontos recorrentes, mas também altera a relação entre o narrador e os demais.
Entre realidade e fantasia
A mitomania, também chamada de pseudologia fantástica, se diferencia da mentira ocasional porque envolve a produção persistente, desproporcional e, em alguns casos, aparentemente compulsiva de histórias. A prática se torna uma característica marcante da maneira como a pessoa se relaciona.
Os relatos não precisam ser impossíveis. Muitas vezes, começam em acontecimentos reais que são modificados, ampliados e ornamentados. O narrador pode aparecer como alguém excepcional, vítima de situações extraordinárias, autor de feitos improváveis ou personagem central de episódios dramáticos.
Esse fenômeno não é igual ao delírio. Quando confrontada com evidências inequívocas, a pessoa pode reconhecer que determinados fatos narrados não aconteceram. A literatura psiquiátrica descreve a pseudologia fantástica há mais de um século, mas ela ainda é controversa e não aparece como diagnóstico independente nos principais sistemas classificatórios.
Um fenômeno que não define um único transtorno
Estudos contemporâneos indicam que a mentira patológica pode provocar sofrimento e prejuízos sociais e ocupacionais relevantes. Uma revisão sistemática encontrou, entre os casos publicados, motivações ligadas à autovalorização e à busca de atenção, além de associações com diferentes transtornos psiquiátricos.
Por isso, não é adequado considerar que toda pessoa que mente de forma patológica tenha um transtorno específico de personalidade. A mitomania pode surgir em diferentes organizações de personalidade e contextos clínicos.
Implicações para o cuidado
A dinâmica construída ao longo do tempo ajuda a explicar por que a confrontação agressiva nem sempre é considerada a melhor estratégia terapêutica. Revisões científicas recentes destacam a importância do vínculo, da escuta de apoio e do tratamento de comorbidades psiquiátricas.
Nessa perspectiva, o foco não precisa ser transformar cada encontro em uma disputa para estabelecer quais afirmações são verdadeiras. Pode ser mais relevante compreender por que a narrativa continua sendo necessária, inclusive quando perdeu parte de sua capacidade de convencer os outros.


