A contradição entre a imagem de submissão exibida por influenciadoras tradwives e o poder econômico que muitas exercem está no centro de Bons Tempos: Yesteryear, romance da autora americana Caro Claire Burke lançado no Brasil pela Editora Rocco. A obra será adaptada para o cinema.
Em entrevista concedida em abril ao programa Book Club, da BBC Radio 2, Burke afirmou que mulheres que se apresentam online como esposas tradicionais podem ser, na prática, as principais provedoras de suas famílias e administradoras de negócios de grande porte.
"É uma grande contradição", disse a autora ao comentar influenciadoras que promovem a submissão e afirmam não sair de casa, mas obtêm ganhos elevados com as redes sociais. Para Burke, a forma como cada mulher se define não é assunto de terceiros. O debate começa quando essas figuras passam a divulgar suas crenças ao público e usam uma imagem que pode ser uma performance.
Uma personagem entre dois tempos
O livro acompanha Natalie Heller Mills, uma influenciadora de 32 anos, casada e mãe de cinco filhos, à espera do sexto. Ela vive em uma fazenda de 200 hectares no Estado americano de Idaho e apresenta aos milhões de seguidores uma rotina familiar aparentemente perfeita.
Natalie prepara pães de fermentação natural, educa os filhos em casa, consome leite não pasteurizado produzido na propriedade e recolhe ovos das próprias galinhas. A personagem, porém, construiu cuidadosamente a imagem exibida diante das câmeras.
De forma repentina, Natalie é transportada para o ano de 1855, período que costuma romantizar em suas publicações. A partir daí, a narrativa alterna entre o presente e uma versão ameaçadora do passado. A explicação sobre como e por que ela chegou ao século 19 aparece apenas no fim do romance.
Burke disse não ter usado uma pessoa específica como inspiração. Ela passou muitas horas nas redes sociais pesquisando as tradwives, mulheres que defendem a adoção de papéis tradicionais de gênero e a submissão das esposas aos maridos. Na definição da autora, a influenciadora tradwife leva essas ideias para a internet, geralmente obtendo bastante dinheiro com isso.
Popularidade e adaptação
A versão em inglês do romance permaneceu durante semanas na lista de mais vendidos do The New York Times e alcançou o primeiro lugar entre os livros de ficção do Sunday Times, no Reino Unido. A obra também ganhou repercussão nas plataformas Bookstagram e BookTok. Em junho, liderou o ranking de assuntos mais comentados do BookTok.
A atriz americana Anne Hathaway comprou os direitos da história depois de ler um primeiro rascunho. Ela vai produzir e estrelar o filme baseado no livro. Burke afirmou que a equipe da adaptação é "incrivelmente apaixonada" e que o roteiro em desenvolvimento é "fenomenal".
Para a autora, o tema permite tratar de maternidade, cuidados infantis, trabalho, economia e cultura. Ela classificou o romance como uma sátira sombria e disse que o humor e o medo foram construídos de maneira instintiva.
A professora Rachel Sykes, da Universidade de Birmingham, afirmou que o interesse pelas tradwives está ligado ao caráter exagerado dessas figuras. Para ela, o paradoxo de mulheres que aparentemente rejeitam profissionais enquanto constroem negócios próprios também as transforma em objeto de análise cultural.



