SÃO PAULO — Edwin Luisi volta à cidade onde nasceu para apresentar “Eu Sou Minha Própria Mulher”, espetáculo em que interpreta a alemã Charlotte von Mahlsdorf e outras 19 personagens. A estreia está marcada para 11 de setembro, no Teatro Faap, depois de uma temporada no Rio de Janeiro e de apresentações em outras cidades do país.
A montagem representa uma retomada pessoal para o ator, que mora há 50 anos no Rio de Janeiro, mas continua se identificando com a Mooca, bairro paulistano onde nasceu e cresceu. Aos 79 anos, Luisi espera rever familiares, amigos e antigos colegas da Escola de Arte Dramática da USP.
Uma personagem entre regimes repressivos
Escrita pelo dramaturgo americano Doug Wright, a peça acompanha Charlotte, travesti que viveu perseguições durante o nazismo e a repressão comunista na antiga Berlim Oriental. Ela reuniu objetos do cotidiano encontrados em casas bombardeadas, criou um museu e manteve um cabaré LGBTQUIA+ clandestino.
A personagem começou a se vestir como mulher aos 15 anos e, ao longo da história, é apresentada em situações de resistência e sobrevivência. O espetáculo também aborda o fato de Charlotte ter sido informante do Stasi, serviço secreto da Alemanha Oriental, na década de 1970. Por isso, ela não é retratada como uma heroína.
Luisi também dá vida a pessoas que conviveram com a colecionadora e ativista, além do próprio autor da peça. Sem microfone, alterna vozes e características dos personagens em uma apresentação que combina momentos dramáticos e bem-humorados.
“São Paulo é um capítulo à parte na minha vida. É a minha terra”, afirma o ator. A primeira montagem do texto ocorreu há 18 anos, mas não chegou à capital paulista por falta de patrocínio. A direção da versão atual é de Herson Capri.
Teatro como centro da carreira
O espetáculo se relaciona com a trajetória de Luisi, que afirma receber poucos convites para trabalhar e vê no palco uma oportunidade de tratar da liberdade de existir. No início da temporada no Rio, há quatro meses, ele foi questionado por interpretar uma travesti, mas a polêmica não avançou. Entre os papéis assumidos, estão também uma mulher lésbica e homens heterossexuais.
O ator ganhou projeção como galã de “A Escrava Isaura”, novela da década de 1970 que teve sucesso internacional e o levou para o Rio de Janeiro. Na época, recebeu orientações da Globo para reforçar a imagem de bom moço, incluindo cuidados com a aparência e a posição à mesa.
Luisi rompeu esse perfil ao aceitar, em uma conversa com Janete Clair durante a festa de aniversário da novelista, o papel do assassino de Salomão Hayalla em “O Astro”, exibida do final de 1977 a julho de 1978. Depois disso, interpretou vilões e personagens de novelas cômicas.
Sua última novela foi “Família É Tudo”, de 2024, em participação especial com Arlete Salles. Embora reconheça a importância da televisão em sua carreira, o ator afirma que sua preferência sempre foi o teatro. No palco, diz sentir-se um artista completo.
Para a apresentação, mantém exercícios de voz aprendidos na Escola de Arte Dramática da USP e aposta no preparo físico. Mesmo nos dias de cansaço, afirma estar pronto quando toca o terceiro sinal: “Sou como uma mariposa, abro as asas e voo.”


