BELO HORIZONTE — Artistas com deficiência ocupam posição central na programação do Festival Acessa BH, que reúne espetáculos, performances, sessões de cinema e lançamentos de livros até o dia 27 de setembro. A mostra foi criada pelos irmãos Daniel e Lais Vitral há dez anos para ampliar a visibilidade desses profissionais e discutir acessibilidade e capacitismo na arte.
Um dos destaques é a peça "Entre Ellas", da companhia de dança Kinesis. No espetáculo, a bailarina Fernanda Maciel coloca as muletas no centro da cena e narra, por meio do movimento, o processo de se tornar uma pessoa com deficiência. Aos 20 anos, ela sofreu uma lesão na medula e passou a usar os equipamentos para se deslocar.
A performance começa com Maciel se contorcendo lentamente no chão. Depois, ela e a bailarina Grazielle Mendes se entrelaçam às muletas, apresentadas como uma extensão de seus corpos. A criação se relaciona ao conceito de "Mulet(an)dança", desenvolvido por Maciel em seu doutorado em educação na Universidade Federal de Minas Gerais.
“É um processo doloroso, em que há luto, mas também existe luta”, afirma Maciel. Para ela, a muleta pode ser compreendida como elemento criativo, cênico e artístico, assim como o corpo de uma pessoa com deficiência pode incorporar outras formas de beleza e estética.
Presença no mercado cultural
Maciel afirma que artistas com deficiência ainda enfrentam invisibilização e barreiras no mercado. Ela critica a predominância de uma concepção corponormativa na dança e menciona o chamado cripface, prática de escalar artistas sem deficiência para interpretar personagens com essa característica.
A curadora Lais Vitral diz que o festival foi pensado para ser acessível ao público e, ao mesmo tempo, colocar profissionais com deficiência em evidência. A produtora cultural considera a arte um instrumento de conscientização e de debate sobre o capacitismo.
Outra produção da programação é "Surda", protagonizada por Benedita Casé. A peça aborda a trajetória de Júlia Spadaccini, escritora e roteirista que criou o texto a partir da própria vida. Aos 19 anos, Spadaccini recebeu o diagnóstico de perda auditiva. Casé, por sua vez, perdeu a audição quando era bebê.
Para a atriz, o espetáculo contribui para questionar preconceitos ao provocar reflexão sobre a relação com o outro. A peça integra a programação do festival ao lado das demais atividades voltadas à produção cultural de artistas com deficiência.


