Uma sequência de invasões e furtos aumentou a pressão sobre museus e igrejas da França. No caso mais recente, ladrões levaram duas pinturas de Pierre-Auguste Renoir de um museu em Cagnes-sur-Mer, na Riviera Francesa. Outras duas obras foram abandonadas no jardim durante a fuga.
O alarme disparou às 5h48, e a polícia chegou cinco minutos depois. As pinturas roubadas são conhecidas: um retrato da atriz Colonna Romano, feito por volta de 1910, e Jovem Mulher no Poço, pintura a óleo de cerca de 1886. Especialistas afirmam que as obras dificilmente seriam vendidas legalmente e poderiam ser direcionadas ao mercado clandestino.
O episódio ocorreu quando o presidente Emmanuel Macron estava em Saint-Paul-de-Vence, a oeste de Nice, para uma conferência sobre a preservação da arte cinematográfica. Não há indícios de relação entre o encontro e o roubo.
Uma sequência de alvos
Os furtos alcançaram instituições de diferentes portes. Foram levadas porcelanas chinesas, cruzes huguenotes, moedas de ouro e prata, peças de joalheria art nouveau e uma camisa usada por Zinedine Zidane na Copa do Mundo. Igrejas também perderam cálices, patenas e outras relíquias religiosas.
Em Langres, ladrões invadiram, um dia depois do assalto ao Louvre, um museu dedicado a Denis Diderot e roubaram moedas de ouro e prata. Duas pessoas foram presas em conexão com esse caso. O prefeito Théo Caviezel disse que os funcionários ficaram traumatizados e passaram a receber treinamento para lidar com ameaças à segurança.
A cidade instalou câmeras adicionais do lado de fora da Casa das Luzes, uma mansão restaurada do século XVI que abriga o museu. Também planeja instalar grades nas janelas e um equipamento capaz de produzir fumaça quando acionado por um alarme, dificultando a fuga dos invasores.
O Museu do Presidente Jacques Chirac, em Sarran, foi alvo de dois roubos na mesma semana e de um terceiro no mês passado. A instituição reúne 5.000 presentes diplomáticos recebidos por Chirac durante sua Presidência, de 1995 a 2007. Na ocorrência mais recente, foi levada a camisa de Zidane.
Segurança e explicações
Especialistas relacionam os crimes à facilidade de recrutar participantes e identificar objetos valiosos por meio das redes sociais. A alta dos preços do ouro e da prata também torna moedas e outros itens atraentes para derretimento e revenda. O assalto às joias da Coroa no Louvre, em outubro passado, teria contribuído para inspirar ações semelhantes.
Arthur Brand, detetive particular de arte em Amsterdã, afirmou que criminosos acompanham as notícias e podem ser estimulados por roubos de grande repercussão. Já o advogado Pierre Noual disse que parte dos crimes pode atender a encomendas de colecionadores particulares, provavelmente estrangeiros.
A vulnerabilidade também apareceu em episódios de vandalismo contra obras, com uso de tinta e cortes. Para Noual, a resposta da Justiça francesa a esses casos incentivou potenciais ladrões.
Apesar da percepção de aumento, um relatório da Assembleia Nacional francesa registrou que, desde 2011, os furtos em museus oscilaram entre 15 e 25 por ano. O documento não abrange 2026. Especialistas avaliam que a impressão de crescimento pode estar ligada à maior disposição das instituições para divulgar ocorrências.
Charlotte Chambers Farah, gerente da Art Loss Register, em Londres, afirmou que os museus passaram a informar com mais transparência os itens roubados ou desaparecidos e a pedir ajuda a organizações especializadas e ao público.
Em julho, o Ministério da Cultura publicou um plano com 33 medidas. Entre as propostas estão o mapeamento dos locais mais vulneráveis, o recrutamento de policiais especializados e o reforço da proteção de peças consideradas especialmente expostas.
A diretora do Louvre, Laurence des Cars, renunciou em fevereiro, em parte por causa dos questionamentos sobre o roubo cometido em plena luz do dia na Galeria de Apolo. Caviezel lembrou que até a Mona Lisa foi roubada do museu em 1911 e resumiu a dificuldade de proteção: “Um prédio tem portas de entrada, tem janelas, tem um telhado. Portanto, é vulnerável”.


