J.R.R. Tolkien imaginou o inferno como um engarrafamento em “Os Fragmentos de Bovadium”, obra póstuma que combina sátira, latim, jogos de linguagem e uma narrativa sobre o colapso de uma antiga cidade de sábios. O livro foi editado por Christopher Tolkien, filho caçula e testamenteiro literário do escritor, morto em 2020.
O nome Bovadium traduz para o latim o nome de Oxford. A expressão significa “vau para bois”, referência à parte rasa de um rio usada pelo gado para alcançar a outra margem. O procedimento repete uma característica da obra de Tolkien: apresentar seus livros como traduções de manuscritos antigos, como ocorre em “O Hobbit”.
A história se passa em um futuro distante, quando arqueólogos encontram as ruínas de Bovadium. Eles interpretam as construções da Universidade de Oxford como fortalezas de um reino desaparecido e identificam inscrições em duas línguas, chamadas de “idioma A” e “idioma B”. O primeiro corresponde ao latim; o segundo, ao inglês.
Motores e controle
A partir dos manuscritos, os pesquisadores reconstituem a destruição da cidade. Um “Daemon”, termo que originalmente significava espírito ou divindade menor, cria máquinas chamadas “Motores”. Os moradores passam a abrigá-las, alimentá-las com óleos e essências e construir casas para elas em seus jardins.
A promessa do Daemon é que cada Motor levará seu dono rapidamente a qualquer destino, permitindo ultrapassar os demais e abandonar o esforço de caminhar. O enredo evolui então para uma conflagração descrita como infernal, em uma crítica à cultura do automóvel que avançou sobre Oxford nos anos 1950 e 1960.
Embora a narrativa tenha sido concebida como uma sátira, seus elementos também retomam preocupações filosóficas e teológicas presentes na ficção de Tolkien. O Daemon se aproxima de vilões como Sauron, de “O Senhor dos Anéis”, e Morgoth, de “O Silmarillion”. Em todos os casos, a promessa central é o controle da natureza e das vontades livres.
O livro quase foi enviado por Tolkien a revistas literárias britânicas. Ele desistiu depois que um amigo considerou o texto hermético demais por causa do latim. As passagens no idioma, porém, aparecem acompanhadas de tradução.
A destruição de Bovadium começa com o motor de combustão interna e termina com uma referência ao projeto de superar limites biológicos e cognitivos humanos. Essa ideia aproxima a obra de debates sobre inteligência artificial, biotecnologia e transumanismo.


