O avanço dos houthis no Iêmen em direção ao estreito de Bab el-Mandeb aumentou a ameaça ao transporte marítimo e às exportações de petróleo da Arábia Saudita. A passagem ganhou importância depois do bloqueio iraniano do estreito de Hormuz, por onde transitava 20% da produção mundial de petróleo e gás antes da guerra no Irã.
Nesta quinta-feira (10), os houthis anunciaram que ampliaram seu domínio na área. O estreito conecta o Mar Vermelho ao Oceano Índico e passou a ser uma rota alternativa para navios sauditas que transportam petróleo. A tensão levou o preço da commodity a superar US$ 105.
Uma ligação entre Europa e Ásia
Bab el-Mandeb significa Porta dos Lamentos em árabe. A passagem separa o Iêmen, na Península Arábica, do Chifre da África e integra a rota entre a Europa e a Ásia pelo Canal de Suez.
O estreito tem aproximadamente 100 quilômetros de comprimento e 30 quilômetros de largura. Ele se estende entre Ras Menheli, na costa iemenita, e Ras Siyyan, no Djibuti. Os dois cabos delimitam a ligação entre o Mar Vermelho e o Golfo de Aden.
Petroleiros e navios mercantes que saem da Ásia usam a passagem para alcançar o Mar Vermelho, o Canal de Suez e o Mediterrâneo, em ambos os sentidos. O tráfego pelo canal caiu drasticamente em 2024, após ataques houthis contra embarcações consideradas ligadas a Israel. Entre janeiro e agosto de 2026, o movimento ficou pouco acima da metade do nível anterior à crise, conforme dados do PortWatch, do FMI.
Pressão sobre as exportações sauditas
Os houthis não controlam diretamente todo o litoral junto ao estreito. Na quarta-feira (9), porém, tomaram Mocha, cerca de 70 quilômetros ao norte da passagem, e mantêm o controle do porto de Hodeida, mais ao norte.
Desde julho, o grupo impôs um bloqueio marítimo à Arábia Saudita e atacou navios do país. Os houthis negam que pretendam fechar Bab el-Mandeb ou cobrar direitos de trânsito. O Instituto para o Estudo da Guerra afirma que o objetivo é elevar o custo econômico e político do conflito para Riade e pressionar a monarquia a encerrar as operações militares.
Antes da guerra no Oriente Médio, Bab el-Mandeb respondia por 12% do fluxo global de petróleo em 2023, segundo a Administração de Informação Energética dos Estados Unidos. Com o fechamento de Hormuz pelo Irã, a rota se tornou ainda mais relevante para a Arábia Saudita.
As exportações pelo porto de Yanbu alcançaram média de 3,8 milhões de barris por dia entre março e julho, aproximadamente cinco vezes o nível anterior à guerra, segundo a Kpler. Em agosto, depois da retomada dos ataques a navios sauditas, o volume caiu para 1,5 milhão de barris por dia.
Para Andreas Krieg, especialista em segurança do King's College London, "o maior perigo não é necessariamente o fechamento físico de Bab el-Mandeb, mas a incerteza persistente".
Escalada no Iêmen
A guerra no Oriente Médio começou em 28 de fevereiro, com ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, seguidos por ações de represália de Teerã na região. Inicialmente, os houthis permaneceram neutros. Em julho, permitiram o pouso de uma aeronave iraniana no Iêmen, apesar do controle saudita do espaço aéreo.
A reação do governo apoiado pela Arábia Saudita rompeu o cessar-fogo acordado em 2022. Desde então, os rebeldes intensificaram o bloqueio marítimo, os ataques contra navios sauditas e as ações contra o território do país.


