LONDRES E WASHINGTON — A Casa Branca acusou Michael Barr, ex-responsável pela supervisão bancária do Federal Reserve, de não ter cumprido seu dever na condução dos problemas que antecederam a quebra do Silicon Valley Bank (SVB). A manifestação ocorreu após um relatório encomendado pelo próprio Fed apontar falhas na supervisão e avaliar que o banco central demorou a reagir às vulnerabilidades da instituição.
A análise do Starling Advisory Group, publicada na sexta-feira (18), também concluiu que o Fed diagnosticou de forma incorreta as causas da falência. Barr ocupava a função de supervisão bancária em 2023. Ele não quis comentar as conclusões.
Divergências sobre o diagnóstico
Michelle Bowman, vice-presidente de supervisão do Fed e responsável pela encomenda do estudo, afirmou que o documento não tinha como objetivo atribuir culpa. Segundo ela, a análise indicou a necessidade de uma reforma significativa na atuação dos supervisores.
O relatório rejeitou a avaliação de que a falha do Fed teria sido provocada por medidas anteriores de flexibilização das regras bancárias. Também não encontrou evidências de que as redes sociais tenham acelerado a corrida aos saques no SVB, como havia afirmado uma análise do próprio banco central em 2023.
Bowman afirmou que os supervisores sabiam, ou deveriam saber, das vulnerabilidades que levaram à quebra. O problema, segundo ela, estava em uma cultura de aversão ao risco, na qual os funcionários evitavam agir sem ter certeza de que a decisão seria exatamente a correta. A falta de clareza sobre quem tinha poder para decidir também teria agravado a situação.
O SVB sofreu grandes perdas contábeis não realizadas em títulos da dívida do governo dos Estados Unidos, cujo valor caiu depois da alta dos juros em 2022. O banco também dependia de depósitos voláteis de empresas de tecnologia, em grande parte sem seguro, e não estava preparado operacionalmente para obter empréstimos do Fed usando seus ativos como garantia.
Pressão política sobre o banco central
O relatório afirma que os reguladores emitiram dezenas de advertências formais ao SVB antes da crise, mas muitas tratavam de tecnologia, conformidade e riscos operacionais, sem abordar as vulnerabilidades financeiras que levaram à quebra. O Fed anunciou planos para concentrar mais atenção nos principais riscos financeiros dos bancos e na estabilidade do sistema, com menor ênfase em procedimentos e documentação.
Como parte da mudança, os examinadores bancários deverão apresentar relatórios mensais aos responsáveis pela supervisão regional, com a identificação de problemas e preocupações.
A Casa Branca usou o relatório para renovar as críticas ao Fed. O porta-voz Kush Desai disse que Barr não cumpriu seu dever durante o episódio e afirmou que as conclusões reforçavam as acusações de má gestão e incompetência feitas por Donald Trump contra o banco central.
O governo Trump também tentou demitir Lisa Cook por acusações de fraude hipotecária, mas a Suprema Corte dos Estados Unidos bloqueou a iniciativa. Cook nega as acusações. Uma investigação criminal contra Jerome Powell, relacionada a seu depoimento sobre os custos da reforma da sede do Fed, foi posteriormente arquivada. Powell também nega as alegações.
Elizabeth Warren, principal democrata da Comissão Bancária do Senado, acusou Bowman de tentar reescrever a história para defender uma flexibilização maior das normas bancárias. Bowman, por sua vez, disse que o estudo apontava problemas culturais e de supervisão, não uma relação entre a crise e a flexibilização regulatória anterior.

