A distância entre a expectativa de vida brasileira e a dos Estados Unidos caiu pela metade em 2018, depois de permanecer em 40 anos entre 1940 e 1980. O dado é um dos elementos centrais de Entre Crises, livro de Leonardo Weller e Thales Zamberlan Pereira, professores da Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas.
Em 1980, a expectativa de vida no Brasil era de 62,5 anos, o mesmo nível registrado pelos Estados Unidos em 1940. Em 2018, o indicador brasileiro chegou a 76,3 anos, equivalente ao dos Estados Unidos em 1998. Para os autores, a comparação ajuda a mostrar que o avanço social brasileiro foi mais lento durante o período de crescimento acelerado do século 20 e ganhou ritmo depois, apesar do desempenho econômico inferior.
Renda, produtividade e pobreza
Entre 1981 e 2023, o PIB per capita brasileiro cresceu, em média, menos de 1% ao ano. Nas quatro décadas entre 1941 e 1980, a renda havia avançado mais de 4% ao ano. A produtividade também teve desempenho superior no período anterior.
Os autores afirmam, porém, que esses indicadores não resumem a trajetória do país. Em 1984, 45% da população tinha renda insuficiente para comprar uma cesta de alimentos capaz de atender ao consumo mínimo diário de calorias. Em 2014, menos de 10% dos brasileiros estavam abaixo dessa linha de pobreza.
O livro examina como essa redução da pobreza ocorreu em um período delimitado por duas crises: a da dívida, no início dos anos 1980, e a do governo Dilma, na década de 2010. A interpretação apresentada é que a Nova República combinou baixo crescimento com redistribuição de renda e expansão de serviços públicos de saúde e educação.
O papel das políticas públicas
Leonardo Weller afirmou que definiu o enquadramento da obra depois da pandemia. Mesmo diante das crises e do baixo crescimento do governo de Jair Bolsonaro, políticas como o SUS e o Bolsa Família não foram desmanteladas, segundo o economista.
“Mesmo depois dessas crises, a gente não voltou à situação horrorosa de décadas antes, do período anterior aos anos 1990, em índices sociais”, disse Weller. Ele reconheceu, contudo, uma piora significativa e o aumento da pobreza.
A explicação do livro combina fatores políticos e econômicos. Com a redemocratização, o voto pressionou o Estado a atender a maioria dos cidadãos. Ao mesmo tempo, uma elite econômica beneficiada por subsídios e proteções comerciais preservou interesses que dificultaram o aumento da produtividade.
Heranças do modelo anterior
Weller relaciona parte das dificuldades posteriores ao padrão de crescimento adotado entre 1945 e 1964 e aprofundado durante a ditadura. Segundo ele, esse modelo concentrou renda, não garantiu bens públicos suficientes e investiu pouco em educação. Também deixou entraves para a produtividade quando terminou a transferência de mão de obra do campo para a cidade.
O livro começa com a crise provocada pelo endividamento externo usado para manter o crescimento em “marcha forçada” durante a ditadura e termina com a crise do governo Dilma. Na avaliação de Weller, os gastos com subsídios para uma indústria estagnada em produtividade contribuíram para a deterioração fiscal da primeira metade da década de 2010.
A conciliação entre os interesses da elite rentista e as demandas da maioria da população gerou redistribuição e serviços públicos, mas também gastos crescentes e déficits recorrentes. Weller afirma que esse arranjo chegou a um limite, porque o espaço fiscal foi reduzido e a dívida pública ficou mais alta do que 20 anos atrás. Por isso, tornou-se mais difícil combinar distribuição de renda financiada por gastos públicos e crescimento econômico.


