O Fundo Monetário Internacional (FMI) retirou Ricardo Reis da disputa pelo cargo de economista-chefe depois de identificar críticas do professor da London School of Economics (LSE) às tarifas comerciais do governo de Donald Trump. A decisão ocorreu pouco antes do anúncio planejado de sua nomeação, conforme pessoas informadas sobre o processo.
Reis, que também leciona na LSE, era o principal candidato para assumir a diretoria de pesquisa e a função de conselheiro econômico do fundo. A mudança foi atribuída a declarações anteriores nas quais o economista português contestou os efeitos das tarifas norte-americanas.
Em julho, o FMI nomeou a argentina Silvana Tenreyro para o cargo. Ex-integrante do comitê de política monetária do Banco da Inglaterra e professora da LSE, ela assumiu a função no mês passado.
Críticas às tarifas
Depois do anúncio das tarifas do chamado “dia da libertação”, em 2 de abril, Reis afirmou que as cobranças aumentariam os preços para os consumidores dos Estados Unidos e poderiam provocar uma nova onda de inflação. Em abril do ano passado, ele também publicou no X que o custo das medidas recairia sobre os consumidores norte-americanos.
Um mês depois, em um podcast da Fundação Francisco Manuel dos Santos, Reis disse que “os preços nos Estados Unidos vão subir por causa das [...] tarifas”. Ele também afirmou que as medidas elevariam imediatamente os preços dos produtos importados e tornariam a produção no país mais difícil, cara e ineficiente.
Tenreyro declarou que as tarifas afetariam negativamente o crescimento, mas suas críticas foram menos contundentes. Os dois economistas publicam com frequência em revistas acadêmicas seletivas de economia.
A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, é responsável pelas nomeações para cargos de alto escalão. Os Estados Unidos, porém, podem exercer influência informal por serem o maior acionista da instituição. Georgieva abandonou a prioridade dada à igualdade de gênero e às mudanças climáticas após críticas do secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent.
Um porta-voz do FMI não comentou o processo de contratação. Ele afirmou que a organização mantinha “sigilo rigoroso sobre as identidades ou os detalhes específicos dos candidatos concorrentes” e classificou a seleção como rigorosa e competitiva. O porta-voz também disse que o fundo estava muito satisfeito com a escolha de Tenreyro, que, segundo ele, reúne excelência acadêmica e experiência em políticas monetárias e macroeconômicas. Reis não comentou.
O episódio ocorre em meio a outros atritos entre o governo Trump e economistas que criticaram as tarifas. No ano passado, Trump pediu ao presidente-executivo do Goldman Sachs, David Solomon, que demitisse o economista-chefe do banco, Jan Hatzius, após ele afirmar que as medidas prejudicariam a economia dos Estados Unidos.
No início deste ano, o assessor econômico Kevin Hassett disse que economistas do Federal Reserve de Nova York deveriam ser punidos por um relatório sobre os custos das tarifas para empresas e consumidores norte-americanos. Depois, recuou parcialmente.
As tarifas integram a estratégia econômica do governo Trump para impulsionar a indústria dos Estados Unidos. A inflação no país está em 3,7%, quase o dobro da meta do Federal Reserve, em parte devido ao impacto das políticas comerciais e da guerra no Irã sobre os preços ao consumidor.
O principal conselheiro econômico do FMI lidera uma equipe de mais de 100 economistas e ajuda a definir a agenda de políticas da instituição. Em junho, o antecessor de Tenreyro, Pierre-Olivier Gourinchas, afirmou que a economia mundial enfrentava riscos provocados por uma guerra econômica de retaliações sucessivas entre países.


