SÃO PAULO — A inteligência artificial alterou o modelo de negócios da internet desde 2022, ao deslocar parte das receitas das plataformas digitais da publicidade baseada em dados para acordos de licenciamento. A avaliação é de Renato Leite Monteiro, ex-diretor de privacidade do Twitter e pesquisador do Oxford Internet Institute.
O Reddit é apontado por Monteiro como o principal exemplo dessa mudança. A rede social, que tinha dificuldades para transformar sua audiência em receita publicitária, fechou um acordo de licenciamento com a OpenAI por US$ 70 milhões em 2024. Depois disso, alcançou valor de mercado de US$ 6,4 bilhões ao estrear na Bolsa de Nova York.
No fim de 2024, o presidente-executivo do Reddit, Steve Huffman, anunciou um contrato de licenciamento com o Google avaliado em US$ 60 milhões ao ano. O acordo está em renovação, enquanto a plataforma busca melhores condições e afirma ter perdido tráfego do buscador nos últimos meses.
Em seu balanço anual, o Reddit informou ter faturado US$ 143 milhões no ano passado com acordos desse tipo. A empresa vale hoje US$ 30 bilhões, quase cinco vezes a avaliação registrada na oferta pública. As ações, porém, caíram 34% neste ano até esta segunda-feira (21), em meio às incertezas sobre os contratos com empresas de IA e às mudanças no tráfego da internet.
Barreiras ao acesso aos dados
Antes do ChatGPT, redes sociais, plataformas de vídeo e música e produtoras de conteúdo reuniam audiência, coletavam dados dos usuários e monetizavam essas informações por meio da publicidade. Com a expansão dos sistemas generativos, o conteúdo publicado pelos usuários passou a ser também matéria-prima para o treinamento de chatbots.
Segundo Monteiro, as plataformas começaram a adotar barreiras técnicas para impedir a raspagem não remunerada por robôs e pressionar por acordos financeiros. Entre as medidas estão o bloqueio de empresas de IA em listas de robôs impedidos de acessar sites e o reforço das restrições para não assinantes.
Elon Musk adotou medidas semelhantes ao assumir o Twitter, incluindo o bloqueio do acesso de pessoas sem conta às publicações e a interrupção de ferramentas de análise de dados que estavam disponíveis na plataforma. Para Monteiro, esse movimento reduziu a quantidade de informações públicas na web e criou escassez de novos dados abertos para o desenvolvimento de sistemas de IA.
O pesquisador afirmou que as principais plataformas já haviam sido treinadas quando o volume de dados públicos começou a cair. Ele também disse que países buscam alternativas próprias à concentração do desenvolvimento de IA nos Estados Unidos e na China.
Regulação e soberania tecnológica
Monteiro, que também integra a diretoria do think tank brasileiro Reglab, associou a falta de regras previsíveis a intervenções governamentais diretas. Ele citou o bloqueio, pelo governo norte-americano, do modelo Mythos e de sua versão Fable 5, desenvolvidos pela Anthropic, mesmo depois do início da distribuição comercial.
Para o pesquisador, parâmetros claros para testes de segurança, biossegurança e cibersegurança ajudariam a evitar decisões políticas pontuais capazes de interromper operações empresariais.
Vice-presidente de inovação da e&, principal empresa de telecomunicações dos Emirados Árabes Unidos, Monteiro acompanha a estratégia do país de desenvolver tecnologias próprias. Segundo ele, os sistemas precisam funcionar localmente para reduzir a dependência de organizações ou governos externos. Um dos objetivos da administração emiradense é adotar inteligência artificial em 50% dos serviços públicos nos próximos dois anos.

