O Brasil tinha cerca de 2 milhões de pessoas que usavam aplicativos de serviços em sua atividade principal ou secundária em 2025, informou o IBGE. O grupo inclui motoristas, entregadores e profissionais de outras áreas cadastrados em plataformas como Uber, 99 e iFood.
A maior parte atuava no transporte particular de passageiros que não é táxi: 1,1 milhão de pessoas, ou 53,9% do total. Também havia 585 mil trabalhadores em entregas de comida e outros produtos, 313 mil na prestação de serviços gerais e 232 mil no transporte por táxi. Como uma pessoa pode exercer mais de uma atividade, os percentuais não correspondem necessariamente a grupos exclusivos.
Os dados fazem parte da Pnad Contínua e foram coletados em parceria com a Unicamp e o Ministério Público do Trabalho. O IBGE já havia investigado o tema em 2022 e 2024.
Trabalho principal e jornada
Entre os 2 milhões de trabalhadores, 1,8 milhão usavam os aplicativos em sua ocupação principal, o equivalente a 92,1%. Esse contingente era de 1,3 milhão em 2022 e aumentou 36,8%, com acréscimo de 486 mil pessoas no período.
Outros 182 mil recorriam às plataformas em uma atividade secundária. Em 2025, 28 mil pessoas declararam utilizar os aplicativos tanto no trabalho principal quanto no secundário. Foi a primeira vez que o IBGE incluiu essa segunda modalidade na pesquisa, o que impede a comparação do total com os levantamentos anteriores.
Os trabalhadores de aplicativos correspondiam a 1,9% da população ocupada de 14 anos ou mais, estimada em 102,4 milhões de pessoas. A participação alcançava 2,4% no Sudeste e ficava em 1,4% no Sul e no Norte.
A jornada média dos profissionais que tinham nos aplicativos seu trabalho principal era de 44,7 horas semanais. Entre os demais ocupados do setor privado, a média era de 39,3 horas, uma diferença de 5,4 horas.
Previdência e renda
A cobertura do INSS atingia 34% dos trabalhadores que dependiam dos aplicativos em sua ocupação principal. Entre os profissionais do setor privado que não trabalhavam por plataformas, a proporção era de 63%. A taxa de informalidade, por sua vez, chegava a 72,1% entre os plataformizados, contra 42,7% no grupo de comparação.
A proteção previdenciária era ainda menor entre motociclistas vinculados a aplicativos: 19,4%, ante 37,1% entre os não plataformizados. Entre motoristas de carros, os percentuais eram de 25,5% e 59,2%, respectivamente. O IBGE ressaltou que a contribuição para regimes de previdência privada não é considerada no levantamento.
A renda média por hora dos trabalhadores de aplicativos foi de R$ 16,20 em 2025, abaixo dos R$ 18,40 registrados entre os demais profissionais do setor privado. Para quem tinha ensino superior completo, os valores eram de R$ 27,70 e R$ 37,10, respectivamente. No grupo sem instrução ou com ensino fundamental incompleto, a renda dos plataformizados era de R$ 12,60, contra R$ 11,30 dos não plataformizados.
No rendimento mensal do trabalho principal, a diferença praticamente desaparecia: R$ 3.147 entre os trabalhadores de aplicativos e R$ 3.148 entre os demais ocupados. Em comparação com 2024, porém, o valor dos plataformizados ficou estável, enquanto o rendimento dos demais profissionais do setor privado avançou 4,1% em termos reais.
Gustavo Geaquinto Fontes, analista do IBGE, afirmou que a pesquisa não encontrou aumento salarial entre condutores de carros e motocicletas por aplicativo em 2025. Ele apontou como possível explicação o crescimento da oferta de trabalhadores nessas plataformas.
Perfil e motivos
A flexibilidade foi o motivo mais citado para escolher o trabalho por aplicativo, com 26,8% das respostas. Em seguida apareceu a falta de outra ocupação, com 24,6%, e a percepção de que a renda seria maior do que em outras atividades disponíveis, com 20,8%.
Os homens representavam 84,4% dos trabalhadores que tinham os aplicativos como principal atividade. Entre os ocupados fora das plataformas, a parcela masculina era de 58,2%.
A faixa de 25 a 39 anos reunia 47% dos plataformizados. No grupo que não usava aplicativos, a maior concentração estava entre pessoas de 40 a 59 anos, com 39,3%. Trabalhadores com ensino médio completo e superior incompleto correspondiam a 62,5% dos plataformizados, ante 45,3% dos demais ocupados do setor privado.
Vendas em marketplaces
A Pnad também estimou em 210 mil o número de trabalhadores por conta própria e empregadores que usavam plataformas de comércio eletrônico para vender produtos. As mulheres eram maioria, com 51,8% desse grupo.
Esses vendedores não foram incluídos no total de 2 milhões de trabalhadores de aplicativos de serviços. O IBGE não investiga as vendas de mercadorias feitas por redes sociais.
A coleta ocorreu no quarto trimestre de 2022 e no terceiro trimestre de 2024 e 2025. O instituto informou que a diferença entre os períodos pode produzir influência sazonal nas comparações, sem impedir a análise.
Associação questiona metodologia
A Amobitec, entidade que representa aplicativos de transporte, reconheceu a importância das pesquisas, mas questionou limitações da metodologia e observou que as estatísticas são classificadas pelo IBGE como experimentais.
A associação afirmou que a participação do trabalho secundário indicada pela pesquisa não seria compatível com o percentual de entrevistados que apontaram a complementação de renda como principal motivo para trabalhar por aplicativo. Também disse que levantamentos anteriores indicariam uma presença maior desse objetivo.
Segundo a Amobitec, pesquisas domiciliares podem deixar de captar parte dos profissionais que trabalham fora de casa. A entidade declarou defender uma regulamentação que preserve a proteção de motoristas e entregadores e, ao mesmo tempo, a flexibilidade e a diversidade dos modelos de negócio.


