A exposição do setor privado argentino a instrumentos de proteção cambial mais que dobrou em cinco meses, em meio à menor entrada de dólares e à atuação crescente do banco central. As posições em contratos futuros, títulos duais e papéis conhecidos como “dollar-linked” passaram de US$ 5,2 bilhões (R$ 26,79 bilhões) no fim de março para cerca de US$ 12 bilhões (R$ 61,82 bilhões) no fim de agosto, segundo estimativas da corretora Facimex.
A mudança ocorre enquanto o governo de Javier Milei tenta manter o peso valorizado para conter a inflação. O peso perdeu 3,7% em relação ao dólar, e os preços ao consumidor avançaram 21,3% no acumulado do ano até agosto. Nas últimas semanas, a política cambial passou a depender mais da intervenção nos mercados de títulos e futuros, enquanto continuam os controles cambiais sobre as empresas.
Menor oferta de dólares
No primeiro semestre, a safra de soja e o volume elevado de emissões de dívida externa por empresas argentinas aumentaram a oferta de moeda estrangeira. O cenário permitiu ao banco central recompor reservas sem exercer pressão significativa sobre o peso.
A dinâmica mudou no segundo semestre. Com a redução das exportações agrícolas depois do pico da safra e a queda dos recursos obtidos em empréstimos corporativos, a autoridade monetária passou a vender mais títulos vinculados ao câmbio e contratos futuros. A estratégia busca atender à demanda por proteção cambial, aliviar a pressão sobre o peso e, ao mesmo tempo, continuar acumulando reservas.
“Há um elevado grau de intervenção do BCRA”, afirmou Ivan Stambulsky, analista do Barclays. Segundo ele, quando o mercado começou a desfazer operações de carry trade após o pico da safra, o banco central intensificou a venda de instrumentos de proteção, reduziu as compras no mercado à vista e permitiu a alta dos juros.
A taxa de câmbio permaneceu próxima de 1.500 pesos por dólar, acima do nível projetado por economistas. Há um ano, analistas consultados pelo banco central esperavam que o peso chegasse a 1.811 por dólar até dezembro de 2026. No mês passado, a previsão foi revisada para 1.629.
Atividade perde força
O peso valorizado reduz a competitividade dos produtores nacionais e barateia as importações em uma economia pressionada por impostos e custos elevados. A indústria local é uma das áreas afetadas, ao lado do varejo e da construção.
A construção recuou 4,5% em agosto na comparação anual, enquanto a indústria de transformação caiu 4,9%. Esses setores ficaram atrás da expansão de energia, mineração e agricultura e empregam grande número de argentinos. Os juros mais altos também encarecem o crédito, que havia se tornado um motor da recuperação depois de anos de inflação elevada restringirem o financiamento a famílias e empresas. Desde as eleições legislativas de outubro do ano passado, a inadimplência das famílias bate recordes mês após mês.
Analistas preveem que o PIB do segundo trimestre tenha encolhido 0,9% ante o trimestre anterior. A agência de estatísticas Indec divulgará os dados na tarde de quinta-feira (17). Para o ano de 2026, economistas reduziram a previsão de crescimento de 3,5% para 2,1%.
A inflação mensal desacelerou de 25,5% no primeiro mês de Milei no cargo para 1,7% em agosto. O índice, porém, permanece mais próximo de 2%, acima da expectativa do presidente de que já estivesse abaixo de 1%.
Para Osvaldo Giordano, presidente do Ieral, centro de estudos econômicos da Fundación Mediterránea, o peso forte expressa a determinação do governo de reduzir rapidamente a inflação e a expectativa de que ele mantenha instrumentos para isso. A política cambial, contudo, amplia o dilema de Milei enquanto ele se prepara para buscar a reeleição no próximo ano.

