Investidores e governos estrangeiros começam a ampliar a busca por alternativas aos ativos dos Estados Unidos, em meio a dúvidas sobre a trajetória da dívida americana, o uso de sanções e a condução da política externa. O movimento inclui redução de posições em títulos do Tesouro, discussões sobre o futuro do dólar, desenvolvimento de moedas digitais e repatriação de reservas de ouro.
A dívida dos Estados Unidos chegou a US$ 40 trilhões (R$ 205,7 trilhões). Embora os mercados americanos ainda recebam recursos privados, as preocupações com a situação fiscal e com a disposição do presidente Donald Trump de levar os limites do Estado de Direito ao extremo passaram a afetar a percepção do país como destino seguro para investimentos.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou em depoimento ao Congresso na terça-feira (15) que continua confiante na credibilidade do sistema financeiro americano. Para ele, os leilões de títulos seguem funcionando e o dólar mantém força por sua presença nas transações globais. “Os EUA são, de fato, o líder, e o líder não teme a concorrência”, disse.
Títulos, dólar e pagamentos digitais
Os sinais de cautela aparecem com mais clareza no mercado de títulos. O rendimento do Treasury de dez anos passou de 5% nesta semana, no maior nível desde 2007. A alta ocorre enquanto investidores exigem retornos maiores para comprar papéis do Tesouro americano, diante da preocupação com o crescimento da dívida nacional.
O fundo soberano da Noruega, considerado o maior do mundo, informou neste mês que pretende diminuir sua exposição aos títulos americanos e procurar retornos mais elevados em outros mercados.
O dólar ainda responde por quase 90% das transações cambiais globais. Sua participação nas reservas dos bancos centrais, porém, caiu para 56% no fim de 2025, ante 64% em 2015. No ano passado, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, afirmou que a formulação de políticas nos Estados Unidos criava condições para um “momento global do euro”.
O uso de sanções contra países como Irã e Rússia também alimenta o debate sobre a permanência do dólar como principal moeda de reserva. O euro e o renminbi chinês ainda não são vistos como concorrentes prontos para superar a moeda americana, mas moedas digitais de bancos centrais, stablecoins e criptomoedas podem oferecer novas formas de realizar transações fora do sistema financeiro dos Estados Unidos.
A China lidera o desenvolvimento da plataforma mBridge, voltada a pagamentos internacionais com Hong Kong, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. A proposta permitiria transferências mais rápidas e com taxas menores que as das operações bancárias tradicionais. Rússia e Índia também disseram que trabalham em um mecanismo baseado em moedas digitais de bancos centrais para liquidar pagamentos do comércio internacional.
Ouro ganha espaço nas reservas
A procura por ouro aumentou enquanto bancos centrais reforçaram suas compras diante dos conflitos globais e das preocupações com a inflação. Em 2025, o volume de reservas internacionais mantidas no metal ficou acima das reservas oficiais estrangeiras em títulos do Tesouro americano. Neste ano, o preço do ouro passou de US$ 5.000 (R$ 25,6 mil) por onça troy pela primeira vez.
Alguns países também decidiram manter o metal mais perto de seus territórios. Com o aumento das tensões geopolíticas e as ameaças de tarifas de Trump contra aliados europeus, governos transferiram ouro que estava guardado em cofres do Federal Reserve de Nova York.
Para Daniel Tannebaum, ex-integrante do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Tesouro americano e ex-coordenador de compliance do Fed de Nova York, a transferência reflete desconfiança e receio em relação aos Estados Unidos.
O ambiente também afeta empresas americanas que atuam no exterior. De acordo com Tannebaum, o uso de tarifas e controles de exportação tornou empresas e países europeus mais cautelosos na adoção de tecnologia americana para áreas sensíveis, como inteligência artificial. A preocupação é que essa infraestrutura possa ser bloqueada ou desativada em futuras disputas, como ocorreu em conflitos envolvendo China e Rússia.


