BRASÍLIA — A Keeta afirma que já gastou R$ 1 bilhão para operar em São Paulo e na Baixada Santista, mas atribui a dificuldade de expansão aos contratos de exclusividade mantidos por iFood e 99Food. Danilo Mansano, vice-presidente da empresa, disse que a Justiça e o Cade precisam limitar essas práticas para que a plataforma avance para outras cidades.
Os dados foram reunidos pela equipe comercial da Keeta antes e depois do início das operações no Brasil. O levantamento considera 147 redes com cinco ou mais lojas nas duas regiões onde a empresa atua. Para a Keeta, esses estabelecimentos são restaurantes-âncora por terem potencial de atrair clientes para plataformas de delivery. A lista inclui McDonald's, Outback, Pizza Hut e redes de alcance local e regional.
A empresa chinesa calcula que 85,7% das redes analisadas firmaram contratos de exclusividade com o iFood ou com a 99Food. Na avaliação da Keeta, esses acordos impedem a entrada dos restaurantes em plataformas concorrentes.
Diferenças entre os segmentos
O bloqueio chega a 92% entre as redes de pizzas e de comida saudável. O índice é de 88% na culinária brasileira e de 86% entre as redes de hambúrgueres. Na comida asiática, a proporção cai para 78%.
Mansano afirmou que a equipe comercial chegou a ter mais de 1.000 pessoas responsáveis por prospectar restaurantes e identificar as razões das recusas à Keeta. “A gente chegou a ter mais de 1.000 pessoas só fazendo essa função”, disse o executivo.
Contestação das plataformas
O iFood rejeitou a ideia de que exista exclusividade generalizada e afirmou que seus contratos seguem limites definidos pelo Cade. Segundo a empresa, não são permitidos acordos com redes de 30 ou mais lojas, e a base de restaurantes exclusivos é limitada a 8% em cidades com mais de 500 mil habitantes.
A 99Food defendeu os acordos como instrumento para que empresas entrantes alcancem massa crítica. A companhia também afirma que oferece semiexclusividade: o restaurante pode continuar no iFood, mas não entrar na Keeta ou em outras plataformas concorrentes.
Os contratos das duas empresas condicionam um pagamento inicial, chamado de upfront, à operação do restaurante em apenas uma ou duas plataformas. No caso do iFood, a exclusividade costuma impedir a atuação em concorrentes. A 99Food diz que suas parcerias têm efeitos positivos para a concorrência e citou expansão de 20% no delivery em São Paulo.
No último dia 9 de agosto, o Cade rejeitou um pedido liminar da Keeta para suspender os contratos de semiexclusividade da 99Food, mas determinou a continuidade da investigação. A empresa aguarda agora o julgamento do tema no Tribunal de Justiça de São Paulo, em sessão marcada para 29 de setembro.
As empresas também trocaram acusações sobre a política de preços. O iFood acusou a Keeta de usar subsídios cruzados, com recursos da matriz chinesa, para reduzir artificialmente o preço dos serviços no Brasil. A Keeta respondeu que a iniciativa tenta desviar a atenção de outras investigações envolvendo o iFood.


