SÃO PAULO — O setor de saneamento prevê ao menos 31 leilões nos próximos meses e anos, com investimentos estimados em R$ 66,3 bilhões. Os projetos alcançam 631 municípios de estados como São Paulo, Goiás e Ceará, segundo levantamento da Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (Abcon).
O valor projetado é inferior ao montante já contratado em leilões realizados desde 2020, quando entrou em vigor o Marco Legal do Saneamento. Ao todo, 70 certames foram promovidos por governos estaduais e municípios, incluindo a privatização da Sabesp, em São Paulo, e a desestatização da Copasa, em Minas Gerais.
A nova rodada tem como foco municípios que ainda não foram incluídos nas concessões. A legislação estabelece que, até o final de 2033, 99% da população brasileira tenha acesso à água tratada e 90% conte com coleta e tratamento de esgoto.
Dos projetos listados pela Abcon, sete são regionais. Entre eles está o Universaliza SP, que prevê atender 146 municípios não atendidos pela Sabesp. Os demais leilões devem envolver um município por certame.
Projetos regionais
Os sete projetos regionais mapeados são:
- Concessão de Rondônia, com 40 municípios e população beneficiada de 1,2 milhão de pessoas;
- Universaliza SP, com 146 municípios, previsão para o 2º semestre de 2026 e população beneficiada de 7,8 milhões de pessoas;
- Concessão do Bloco D de Alagoas, com 21 municípios e 550 mil pessoas beneficiadas;
- PPP de Goiás, com 216 municípios e 3,4 milhões de pessoas beneficiadas;
- PPP do Rio Grande do Norte, com 48 municípios e 1,8 milhão de pessoas beneficiadas;
- projeto do Espírito Santo, com 32 municípios e 1,1 milhão de pessoas beneficiadas;
- PPP do Ceará, com 104 municípios, ainda sem data prevista e população beneficiada de 1,2 milhão de pessoas.
Saneago e Cagece
A Saneago, empresa de saneamento de Goiás, deverá tentar novamente licitar suas PPPs de esgoto. O leilão estava marcado para março deste ano, mas foi cancelado depois que o único grupo interessado foi desabilitado. A companhia prevê realizar o certame no primeiro semestre de 2027.
O grupo que havia apresentado proposta era o consórcio Águas do Cerrado, formado por Quebec Ambiental, São Bento Upside e Sistemma. A oferta se referia ao bloco 2, na região oeste, com previsão de R$ 1,3 bilhão em investimentos. Outros dois lotes também foram oferecidos, mas não receberam propostas.
A Saneago informou que revisa a configuração e a modelagem do projeto. Entre os pontos analisados estão as estimativas de Capex e Opex, os efeitos da reforma tributária, o custo de capital e aspectos da gestão comercial. Os valores de investimento serão definidos após a conclusão dos estudos.
Depois disso, o projeto deverá passar pela apreciação das Microrregiões de Saneamento Básico do Estado de Goiás e do Tribunal de Contas do Estado de Goiás, além de consulta e audiência públicas e aprovações internas da companhia.
No Ceará, a Cagece deverá promover uma nova tentativa para os quatro blocos que ainda não foram concedidos. O projeto foi dividido em cinco partes, e somente o primeiro bloco recebeu proposta: o Consórcio Ceará Saneamento o arrematou em junho deste ano.
A Cagece informou que ouviu empresas e submeteu o processo ao Conselho Gestor de Parcerias Público-Privadas. O documento está sob análise do Tribunal de Contas do Estado do Ceará, e a expectativa é lançar o novo leilão ainda este ano.
Projetos estruturados pelo BNDES
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social informou que realizou 20 leilões de saneamento desde 2020, distribuídos por dez estados: Alagoas, Rio de Janeiro, Amapá, Espírito Santo, Ceará, Rio Grande do Sul, Sergipe, Pará, Pernambuco e Paraíba. O primeiro foi realizado em 2020, para a concessão dos serviços de água e esgotamento sanitário da Região Metropolitana de Maceió. O mais recente ocorreu em maio de 2026, na Paraíba, para uma PPP de esgotamento sanitário em 85 municípios.
Os projetos estruturados pelo banco adotaram concessões parciais, concessões plenas e PPPs de esgoto com companhias estaduais. Na concessão parcial, a empresa estadual continua responsável pela produção de água em alguns sistemas integrados, enquanto a iniciativa privada assume a distribuição e as etapas do esgotamento sanitário. Na concessão plena, todas as fases dos serviços de água e esgoto são transferidas ao setor privado.
O BNDES também mantém sete projetos em estruturação, em estágios diferentes. O mais recente envolve o Espírito Santo, que contratou o banco em novembro de 2025.
Na avaliação do advogado Fernando Vernalha, os ativos mais atrativos foram leiloados nos últimos anos, mas ainda existem projetos com potencial, como os da Saneago e de Rondônia. A concessão de Rondônia está prevista para ser leiloada no fim de setembro. Para ele, os grandes operadores estão com a capacidade absorvida pelos contratos já conquistados.
Renata Villela, sócia do Cascione Advogado, afirmou que os programas de governo de Lula e Flávio Bolsonaro incluem a promessa de apoiar estados e municípios na universalização do acesso à água tratada e ao esgotamento sanitário. Segundo ela, a execução depende mais dos governos estaduais do que do governo federal.
O advogado Luís Felipe Valerim apontou que as PPPs passaram a concentrar atenção no setor depois da baixa concorrência no leilão da Cagece. Para ele, a matriz de risco e a viabilidade dos projetos precisam ser ajustadas.


