SÃO PAULO E BRASÍLIA — O próximo presidente deverá receber uma carteira de concessões de infraestrutura com ao menos R$ 204 bilhões em investimentos previstos. Projetos de rodovias, ferrovias, portos e hidrovias que o governo esperava levar a leilão em 2026 foram adiados para 2027 ou para os anos seguintes.
Os atrasos decorrem de suspensões de estudos, mudanças de cronograma, acúmulo de projetos na Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e um acordo frustrado no Tribunal de Contas da União (TCU). Apesar disso, a atual gestão realizou 50 leilões de rodovias, portos e aeroportos entre 2023 e 2025, conforme levantamento dos ministérios dos Transportes e de Portos e Aeroportos.
Rodovias e ferrovias
O Ministério dos Transportes havia previsto 13 leilões rodoviários para 2026, mas a expectativa foi reduzida para sete. Até agora, foram realizados três: o lote das Rotas Gerais, a Rota dos Sertões e o trecho de 383 km da rodovia Régis Bittencourt, que passou por repactuação. A pasta prevê mais quatro certames até o fim do ano.
Com a reprogramação, projetos rodoviários com investimento estimado em R$ 28,8 bilhões ficarão para o próximo mandato. Entre eles estão as otimizações da Rodovia Transbrasiliana, da Rota Planalto Sul e da Rota Litoral Sul, além dos lotes 1 e 3 das Rodovias Integradas de Santa Catarina. O ministério informou que a definição do cronograma e das datas dos próximos leilões será divulgada em novembro.
No setor ferroviário, projetos com R$ 154,9 bilhões em investimentos previstos também passarão para o próximo mandato. Dos oito leilões planejados pelo Ministério dos Transportes, somente o do Corredor Minas-Rio, marcado para dezembro, deve ocorrer ainda neste ano.
O ministro dos Transportes, George Santoro, afirmou que o governo pretende publicar ainda neste ano os editais do Anel Ferroviário do Sudeste (EF-118), entre Rio e Espírito Santo, e da Malha Oeste, entre São Paulo e Mato Grosso do Sul. Também há a intenção de resolver em 2026 a situação da Ferrogrão (EF-170), mas ainda não existe data para os leilões.
Em evento realizado em São Paulo, o ministério apresentou a empresas e bancos sete trechos ferroviários de curta extensão, com potencial para o transporte de cargas e passageiros. A previsão é levar pelo menos dois a leilão até o fim do ano, no modelo de autorização. Nesse formato, empresas privadas podem construir e operar as malhas por conta própria.
Santoro disse que os editais podem ser publicados neste ano para que os leilões ocorram no início do próximo. Para Maurício Portugal, especialista em infraestrutura e concessões, o calendário político também contribui para a redução do número de certames: “É natural você conseguir fazer menos leilões no ano eleitoral”.
Portos e hidrovias
Dos 18 leilões portuários previstos para 2026, apenas três haviam sido realizados até setembro: o POA26, no porto de Porto Alegre; o MCP01, no Porto de Santana, no Amapá; e o NAT01, no porto de Natal. Os outros 15 permanecem pendentes, em etapas como consulta pública, ajustes de estudos, análise regulatória ou definição de data.
Os projetos portuários adiados para 2027 ou depois reúnem ao menos R$ 20,8 bilhões em investimentos previstos. O cálculo considera 13 dos 15 empreendimentos da carteira de 2026 que ainda não foram realizados e para os quais há estimativas de investimento. O valor pode aumentar com a definição de outros projetos.
Entre os empreendimentos pendentes está o Tecon Santos 10, no porto de Santos, com previsão de R$ 6,4 bilhões em investimentos. O projeto gerou divergências sobre o modelo de licitação e dividiu o governo.
Também estão atrasados o ITJ01, em Itajaí (SC), com investimento estimado em R$ 2,66 bilhões, e a concessão do canal de acesso ao porto de Santos, que prevê R$ 6,45 bilhões. A audiência pública sobre o canal ocorreu em 1º de setembro, e o prazo para contribuições vai até 29 de setembro.
As cinco concessões de hidrovias previstas foram adiadas. O governo havia planejado para 2026 o primeiro leilão de uma hidrovia federal, no rio Paraguai. Os projetos dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós seguem sem datas definidas, após alterações nos estudos e na modelagem. No Madeira, houve revisão do projeto depois de embates com comunidades locais e indígenas.
O Ministério de Portos e Aeroportos declarou que a carteira segue em execução, com projetos em diferentes fases de estruturação, análise técnica, avaliação regulatória, controle externo, consulta pública e preparação de editais. A pasta também trabalha para leiloar pelo menos mais dois aeroportos regionais ainda neste ano.
Depois do primeiro leilão de um canal de acesso, realizado em Paranaguá em 2025, o governo pretendia licitar em 2026 projetos ligados aos acessos de Santos, Itajaí, Rio Grande e Salvador. Nenhum dos quatro havia sido levado a leilão até setembro, e não havia data marcada para os certames.


