SÃO PAULO — A segurança pública chega às eleições de 2026 diante de uma combinação de problemas antigos e novas formas de atuação criminosa. O próximo presidente terá de enfrentar organizações que ultrapassaram os limites territoriais e prisionais e passaram a operar em mercados legais, no sistema financeiro e no ambiente digital.
Ao mesmo tempo, permanecem dificuldades como a baixa capacidade de investigação, a pouca integração entre as polícias, a superlotação do sistema prisional e a presença de territórios onde o Estado não exerce plenamente sua autoridade. Fraudes digitais, lavagem de dinheiro, infiltração de facções em atividades lícitas, circulação de armas e redes que atravessam estados e países ampliaram o desafio para as políticas de segurança.
Eliana Sousa Silva, diretora e fundadora da Redes da Maré, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, afirma que a segurança pública não está estruturada como um sistema, apesar de ser prevista na Constituição ao lado de direitos como educação e saúde.
A falta de coordenação entre diferentes níveis de governo e de poder é apontada como um dos principais entraves. Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, diz que o Sistema Único de Segurança Pública, o SUSP, criado em 2018, não produziu a transformação esperada.
Melina Risso, diretora de pesquisa do Instituto Igarapé, afirma que as polícias ainda atuam de forma fragmentada. A Polícia Militar responde pelo patrulhamento, enquanto a Polícia Civil conduz as investigações, sem que exista uma cooperação uniforme entre as corporações. Para Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, as polícias civis precisam ser modernizadas para investigar crimes associados à tecnologia.
Um caso envolvendo a psicanalista paulistana Liana Reichstul, 77, mostra como golpes financeiros podem se combinar a crimes praticados nas ruas. Depois de pegar um táxi, ela foi informada pelo motorista de que não havia troco e passou o cartão em uma maquininha. O condutor devolveu outro cartão, e, na manhã seguinte, retirou R$ 10 mil da conta dela. O banco ressarciu o valor. Dois meses antes, Liana havia tido o celular roubado por uma pessoa em uma bicicleta, na zona oeste de São Paulo.
Investigação e crimes sem resposta
As limitações também aparecem nos crimes considerados tradicionais. A elucidação de homicídios melhorou, mas os resultados variam entre os estados. O Distrito Federal esclarece 96% dos homicídios, enquanto a Bahia chega a 13%.
A falta de investigação e de perícia também afeta casos atribuídos a agentes públicos. Maiara Oliveira, 25, foi baleada na barriga ao fim de uma operação da Polícia Civil no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, em outubro de 2020, quando estava grávida. Ela perdeu o bebê, ficou 40 dias em coma e ainda aguarda uma resposta.
Com apoio do projeto Maré por Justiça, parceria da Redes da Maré com universidades internacionais, Maiara conseguiu realizar um estudo forense sobre a trajetória da bala. O material foi encaminhado ao Ministério Público do Rio de Janeiro, responsável pela supervisão das investigações. A advogada Marcela Cardoso, coordenadora do projeto, afirma que a apuração de violações exige garantias para evitar a repetição dos problemas.
O número de armas registradas também aumentou. O Sistema Nacional de Armas (Sinarm) alcançou 2,17 milhões de registros ativos em 2025, alta de 240% desde 2018. No mesmo ano, as polícias apreenderam 108.786 armas, 5,4% a mais que em 2024. As apreensões, porém, não permitem calcular o tamanho do mercado ilegal.
Prisões e violência contra a mulher
O sistema prisional chega à próxima eleição com superlotação, domínio de unidades por facções e baixa capacidade de reduzir a reincidência. Alberto Kopittke, diretor do Instituto Cidade Segura, defende programas específicos de reabilitação para presos de alto risco ligados a facções e com longa trajetória criminal.
Para Kopittke, a União deve orientar estratégias de policiamento, combate ao crime organizado, prevenção da entrada de jovens nas facções, tratamento de homens agressores e apoio psicológico a mulheres vítimas. Ele afirma que não há uma política pública nacional para essas frentes.
A violência contra a mulher expõe ainda dificuldades na circulação de informações entre saúde, Justiça e órgãos de proteção. Rosaly Machado Ferreira, 43, recepcionista de uma unidade de saúde de Garanhuns, em Pernambuco, sofreu violência doméstica durante anos do primeiro companheiro. Após fugir, obteve medida protetiva, mas o filho do casal permaneceu sob guarda compartilhada.
Rosaly relatou ao juiz e ao Conselho Tutelar que o menino sofria maus-tratos na casa do pai. Gabriel não voltou para casa depois de uma visita: o pai o havia agredido até matá-lo aos três anos. Hoje, ela afirma que mulheres vítimas de violência chegam aos serviços de saúde sem receber acolhimento e encaminhamento adequados.


