LONDRES — Um testamento pode definir não apenas o destino de bens, mas também quem ficará responsável por contas, dívidas, animais de estimação e instruções para o funeral. A possibilidade de registrar essas decisões tem levado pessoas jovens a preparar o documento antes de acumular patrimônio significativo.
Erin Atkinson, de 27 anos, trabalha com pesquisa psicológica em uma universidade de Londres e mora de aluguel. Ela se mudou de Bristol para a capital da Inglaterra há quatro anos e não se considera particularmente rica. Ainda assim, decidiu como alguns de seus bens serão distribuídos.
O carro de Erin, avaliado em £ 7 mil (cerca de R$ 48 mil), ficará com a irmã. Um colar de ouro recebido do parceiro voltará para ele. Ela também determinou que parte de seu dinheiro seja destinada a uma instituição de caridade voltada à endometriose.
“Foi muito empoderador poder deixar isso registrado, dizendo que quero que determinada quantia seja doada”, afirmou Erin.
O que o documento pode organizar
A elaboração do testamento também permite registrar orientações que não estão diretamente relacionadas ao valor dos bens. Erin incluiu um poema para ser lido no funeral e indicou a bebida que gostaria que fosse servida. Para ela, esses detalhes têm importância emocional.
“Para mim, escrever um testamento não tinha a ver com esperar o pior. Tinha a ver com assumir responsabilidade e tornar a vida mais fácil para as pessoas de quem gosto”, disse.
Eleanor Hodgson, da Crombie Wilkinson Solicitors, afirma que o documento pode nomear alguém para lidar legalmente com contas bancárias e dívidas, evitando obstáculos para a família. Sophia Maslin, fundadora da Morby, plataforma de criação de testamentos online, diz que é equivocado acreditar que apenas pessoas com patrimônio elevado precisam fazer um.
Segundo Maslin, poupanças, investimentos, pensões, contas de redes sociais, animais de estimação e preferências para o funeral são exemplos de temas que podem ser considerados. Ela também afirma que acontecimentos inesperados podem ocorrer em qualquer fase da vida.
Experiências que influenciaram Erin
A ideia surgiu depois que uma amiga comprou uma casa. Mais tarde, Erin passou a acompanhar Maslin no TikTok e conheceu o caso da prima dela, que morreu jovem sem deixar um testamento, deixando a família diante de uma situação complicada.
A experiência com o testamento da avó também teve influência. Erin conta que, por ser grande, a família enfrentou um processo complexo, mas que um documento escrito de forma clara ajudou a orientar as decisões e reduziu a pressão sobre os parentes. Durante a preparação, ela percebeu que tinha mais ativos financeiros do que imaginava.
O National Wills Report de 2025 apontou que, no Reino Unido, um em cada cinco jovens de 18 a 24 anos tem testamento. A proporção chega a 33% entre pessoas de 22 a 34 anos e a 56% entre aquelas com mais de 55 anos.
Regras e formas de fazer
No Brasil, qualquer pessoa maior de 16 anos, em plena capacidade e apta a expressar sua vontade, pode fazer um testamento. O testamento público, modalidade considerada mais formal e segura, deve ser registrado em cartório de notas na presença de duas testemunhas.
O documento pode ser preparado gratuitamente ou por um custo menor em algumas situações. No Reino Unido, advogados voluntários participam da campanha Will Aid, realizada anualmente em novembro. Membros de sindicatos também podem ter acesso a um serviço gratuito, segundo a Citizens Advice.
Entre as decisões a serem tomadas estão a escolha dos beneficiários e do executor, responsável por garantir o cumprimento das vontades. Também é possível indicar quem cuidará dos animais de estimação e registrar preferências para o funeral. Depois de pronto, o testamento deve ser guardado em local seguro, e uma pessoa de confiança precisa saber onde encontrá-lo.


