A crise energética cubana transformou tarefas comuns em decisões diárias sobre deslocamento, água, alimentação e segurança. Gustavo, profissional de 25 anos, mantém o hábito de ir à academia todas as manhãs, mas precisa reorganizar a rotina diante de apagões que chegam a cerca de 16 horas por dia.
Para chegar ao trabalho, ele atravessa um túnel submarino pelo ciclobus, um dos poucos meios de transporte que ainda operam no trajeto. O serviço, porém, passou a falhar desde o bloqueio energético no início deste ano. Quando não consegue usá-lo, Gustavo evita pagar um táxi que poderia consumir um terço de seu salário mensal.
Do outro lado da baía, ele caminha até uma piquera, onde carros particulares oferecem lugares individuais. A viagem que antes custava dois pesos cubanos (US$ 0,08, cerca de R$ 0,42) nos ônibus públicos passou a custar cerca de 800 pesos (US$ 33, cerca de R$ 170), valor equivalente a 25% do salário mínimo mensal em Cuba. Na volta, ele costuma pedir carona ou percorrer longas distâncias a pé.
“Com a crise, cada vez caminho mais”, afirma Gustavo. A falta de transporte também reduziu sua vida social. À noite, sair se tornou caro e difícil, especialmente sem ônibus para o retorno.
Água, lixo e horas no escuro
A escassez de combustível afetou ainda a coleta de lixo. Em sua região, onde o caminhão passava uma vez por semana, moradores passaram a queimar os resíduos. Gustavo relata que essa prática já provocou incêndios em latões e paredes de edifícios. No final do ano passado, Cuba enfrentou uma epidemia de vírus transmitidos por mosquitos, em parte relacionada à falta de coleta.
Dentro das casas, a interrupção da energia prejudica o abastecimento de água. Os motores que levam o recurso às residências deixam de funcionar, e tubulações antigas se rompem com frequência. Gustavo conta que sua casa ficou uma semana sem água. Para se preparar, a família armazena o que consegue em um tanque no teto, outro no pátio e 20 baldes pequenos.
Os apagões, chamados de alumbrones em Cuba, tornaram-se mais longos e irregulares. A eletricidade pode voltar por quatro horas, ou por apenas duas, sem um padrão definido. Quando a energia retorna, moradores correm para lavar roupas e usar aparelhos, mesmo de madrugada, sem saber quando terão outra oportunidade. Alimentos refrigerados também podem estragar.
A infraestrutura energética é antiga e tecnologicamente obsoleta, enquanto as centrais termelétricas produzem apenas uma fração de sua capacidade. O Sistema Elétrico Nacional, operado pela estatal União Elétrica, entrou em colapso sete vezes desde o início deste ano. Uma análise do Grupo de Estudos de Cuba atribuiu a situação a “recursos internos insuficientes com prioridades mal definidas, agravados por uma fraca capacidade de implementação”.
A rede depende fundamentalmente de combustíveis fósseis, que não estão disponíveis para Cuba. A falta de petróleo se agravou neste ano após o bloqueio energético imposto à ilha pelos Estados Unidos. Em janeiro, Donald Trump ameaçou aplicar tarifas de importação aos países que fornecessem petróleo a Cuba. Os embarques da Venezuela terminaram com a detenção do presidente Nicolás Maduro, no início do ano. Altos funcionários americanos disseram que o objetivo é aumentar as pressões pela “queda” do governo revolucionário cubano.
Trabalho, segurança e planos pessoais
Em uma noite, Gustavo voltou para casa por ruas sem iluminação e pagou mais ao motorista para ser deixado diante de sua residência. Ele afirma que a criminalidade aumentou e que passou a andar com mais cuidado. Seu pai teve os lados de uma maleta cortados durante uma tentativa de assalto, e Gustavo perdeu objetos de baixo valor sem perceber o roubo.
Formado em História da Arte, ele tenta trabalhar em uma galeria, escrever e publicar reportagens em uma revista. Apesar das dificuldades, diz que ajusta seus objetivos ao que é possível e não pretende desistir. “Enquanto houver arte e artistas, terei a oportunidade de realizar meu sonho.”
Para Gustavo, a crise também afeta o estado emocional da população. A interrupção da energia encerra atividades de lazer, aumenta a irritação e amplia a incerteza sobre o futuro. “As pessoas estão com os nervos à flor da pele”, afirma.


