A rota que passa pela Guiana e pelo Brasil se consolidou como um dos principais caminhos usados por cubanos para chegar ao Uruguai. Em 2025, o número de entradas de cidadãos da ilha superou o de saídas em 14.961 pessoas. Entre janeiro e julho deste ano, o saldo positivo foi de 8.123, segundo a Direção Nacional de Migração.
O movimento também elevou a demanda por refúgio. No primeiro semestre deste ano, os pedidos chegaram a uma média de 1,3 mil por mês. Até o fim de junho, 30.715 solicitações aguardavam decisão da Comissão para Refugiados (Core). A vice-chanceler uruguaia e presidente do órgão, Valeria Csukasi, afirmou que 89% dos pedidos são de cubanos.
Uma passagem pelo norte do Brasil
A entrada pelo Brasil aparece em uma análise da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e da Organização Internacional para as Migrações (OIM), divulgada em abril. Entre janeiro e outubro de 2025, mais de 11 mil cubanos passaram pelo controle migratório conjunto, com média de 30 pessoas por dia.
Segundo o documento, a maioria cruza a Guiana, único país da América do Sul que não exige visto de cubanos, e depois segue para o Brasil ou o Uruguai com auxílio de redes de contrabando de migrantes. Os valores cobrados variam entre US$ 1.200 e US$ 10 mil por pessoa.
A cubana Liudmila Medina percorreu esse trajeto com o marido, três filhos, um bebê ainda não nascido e o filho Tristán, que tem problemas no sistema nervoso central. A família saiu de Cuba depois que o plano de viajar aos Estados Unidos pela Nicarágua foi interrompido por um problema com o passaporte.
Eles chegaram à Guiana em um voo comercial, atravessaram o país em uma van durante cerca de 17 horas e entraram no Brasil por Roraima. Depois de cruzar o território brasileiro, alcançaram a fronteira entre Santana do Livramento e Rivera e pediram refúgio no Uruguai. A viagem ocorreu em abril de 2024 e custou quase US$ 13 mil.
Residência e pendências
O Uruguai concedeu 6.185 residências permanentes a cubanos no ano passado e outras 4.665 nos primeiros sete meses deste ano. Ainda assim, parte dos imigrantes permanece sem definição migratória porque os pedidos de refúgio estão pendentes ou foram rejeitados.
Essa situação dificulta o acesso a crédito bancário, a apresentação de garantias para alugar imóveis e a reunião com familiares que continuam em Cuba. A deputada Leydis Aguilera apresentou um projeto de lei para conceder residência permanente a pessoas que comprovem vínculos estabelecidos com o país.
Com 3,4 milhões de habitantes, o Uruguai recebeu proporcionalmente um fluxo expressivo de cubanos. O Brasil, com 214 milhões de habitantes, registrou no ano passado uma média mensal de quase 3.500 pedidos de refúgio de cidadãos da ilha.
A busca pelo Uruguai é associada à estabilidade política e econômica, aos serviços públicos gratuitos de saúde e educação e à assistência social destinada a famílias de baixa renda, inclusive estrangeiros residentes. O custo de vida é apontado como uma dificuldade para os recém-chegados.
Madelyn del Río, presidente da ONG Manos Cubanas, estima que cerca de 60 mil cubanos vivam atualmente no país. O número é cinco vezes maior que os 11.826 registrados no censo de 2023. Ela afirma que a maioria ainda entra pela fronteira com o Brasil, por ser um caminho mais rápido do que aguardar vistos, inclusive os de reunificação familiar.
Trabalho e adaptação
A comunidade cubana se espalhou por diferentes regiões uruguaias. Em Santa Rosa, cidade de cerca de 7 mil habitantes, aproximadamente 1,1 mil imigrantes trabalham principalmente em propriedades rurais e em uma empresa avícola.
O prefeito Ramiro Azor disse que a prefeitura organiza oficinas de convivência e uma exposição sobre comidas, música e costumes dos novos moradores. Segundo ele, os imigrantes também movimentam o comércio local.
Em Montevidéu, Carmen Díaz abriu uma empresa de manicure após emigrar para o Uruguai. Lisbel Becquer trabalha em um centro agroalimentar e respondeu nas redes sociais a críticas de que cubanos tirariam empregos de uruguaios. Há também relatos de comentários racistas e xenófobos.
Medina encontrou dificuldades no início, mas obteve apoio para moradia e para a entrada dos filhos em uma pré-escola. Tristán recebe acompanhamento de especialistas no hospital Pereira Rossell. Ela vive em Montevidéu com o marido, os filhos e duas cachorras, Cuba e Habana.
A família escolheu o país depois que Medina ouviu relatos sobre um lugar bonito e tranquilo e conheceu o trabalho da Teletón, fundação voltada à reabilitação de crianças com deficiência. A reabilitação de Tristán pela instituição foi considerada inviável, mas a família decidiu permanecer no Uruguai.


