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Internacional

Ataques às urnas expõem fragilidades democráticas nas Américas

Questionamentos sem provas, restrições ao voto e exclusão de opositores revelam diferentes níveis de pressão sobre os sistemas eleitorais da região.

Ataques às urnas expõem fragilidades democráticas nas Américas
Foto: Reuters e EPA via BBC

Questionamentos sem evidências contra resultados eleitorais, restrições ao voto pelo correio e impedimentos à participação de opositores marcaram a disputa política nas Américas em 2026. Os episódios atingiram países com trajetórias distintas e envolveram grupos de direita e de esquerda.

Na Colômbia, o ex-presidente Gustavo Petro levantou suspeitas depois da vitória de Abelardo de la Espriella, em julho deste ano. A missão eleitoral da União Europeia classificou a apuração como transparente e eficiente, sem encontrar inconsistências na comparação entre atas e votos físicos. O órgão eleitoral colombiano também informou que a revisão de quase todas as mesas apontou diferença mínima em relação à contagem preliminar.

No Peru, Roberto Sánchez questionou parte da votação presidencial, especialmente os votos no exterior, após ser derrotado por Keiko Fujimori. Observadores da Organização dos Estados Americanos e da União Europeia não identificaram evidências de fraude. A Defensoria do Povo peruana chegou à mesma conclusão, embora tenha registrado falhas logísticas e problemas de coordenação entre órgãos eleitorais.

Pressões sobre o voto e as instituições

Nos Estados Unidos, Donald Trump tem defendido medidas para limitar o voto pelo correio e repetido, sem provas, que a eleição de 2020, vencida por Joe Biden, foi fraudada. A disputa chegou à Justiça americana, com decisões favoráveis tanto ao governo federal quanto aos estados que se opõem às restrições.

Críticos afirmam que as iniciativas ampliam o poder federal sobre eleições administradas pelos estados e podem dificultar o acesso às urnas. Os eleitores democratas, grupo que costuma se opor a Trump, são mais propensos a usar o voto pelo correio do que os republicanos. O próprio presidente recorreu a essa modalidade em diferentes eleições.

O Brasil também entrou no debate. Em 21 de julho, durante a pré-campanha, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro questionou a segurança das urnas eletrônicas em encontro com diplomatas estrangeiros. Ele associou os equipamentos brasileiros à empresa venezuelana Smartmatic, mas o Tribunal Superior Eleitoral esclareceu que a companhia não fornece as urnas usadas no país e que o sistema é desenvolvido e administrado pela Justiça Eleitoral.

Flávio reconheceu depois ter divulgado uma informação errada sobre a empresa. Em entrevista, afirmou que respeitaria o processo e o resultado eleitoral, mas também declarou: “Eu não vou perder essa eleição. E eu digo mais: vou ganhar no primeiro turno”.

Na Nicarágua, a pressão sobre o sistema avançou para a exclusão da oposição. O governo de Daniel Ortega aprovou uma reforma que impede adversários de disputar eleições. A medida amplia a concentração de poder iniciada após o retorno de Ortega ao governo, em 2007. As eleições presidenciais de 2021 ocorreram depois da prisão de opositores e foram contestadas internacionalmente. Reformas constitucionais posteriores ampliaram os poderes de Ortega e de Rosario Murillo, que passou a ocupar o cargo de copresidenta.

A Venezuela apresenta outro cenário. O país está sob um governo interino desde a captura de Nicolás Maduro, em janeiro de 2026, mas não há data definida para uma eleição. Na última quarta (2), Trump disse que a Venezuela ainda não estava pronta para votar. A presidente interina, Delcy Rodríguez, endossou a declaração e afirmou que o país só iria às urnas quando estivesse preparado.

Herança autoritária e instabilidade

Para Lorena Barberia, professora de ciência política da USP, a desconfiança em relação às urnas está ligada ao passado autoritário recente da América Latina. Segundo ela, as instituições democráticas ainda não se estabilizaram, tanto por fatores culturais quanto por mecanismos institucionais.

“Os presidentes daqui tem dificuldade de aceitar as derrotas e fazer as transições de poder”, afirmou a professora. Ela também relaciona os retrocessos à eleição de líderes que defendem regimes autoritários do passado e às mudanças nas regras eleitorais promovidas por esses políticos.

Um estudo liderado por Barberia no instituto Kellogg para estudos internacionais apontou que mais de 25% dos países latino-americanos sofreram retrocessos autoritários nas últimas duas décadas. Na Venezuela, na Nicarágua, na Bolívia e no Equador, presidentes eleitos alteraram Constituições e regras eleitorais para prolongar sua permanência no poder.

Bolívia, Equador e Honduras, contudo, realizaram novas eleições competitivas e retomaram suas transições democráticas. O estudo descreve a consolidação democrática como um processo longo, sujeito a disputas e dependente de vigilância contra o autoritarismo apresentado sob formas legais.

Nos Estados Unidos, um estudo do Instituto Variedades da Democracia informou que o país perdeu, pela primeira vez em mais de meio século de pesquisa, o status de democracia liberal. Em um ano, a pontuação caiu 24%, e a posição no ranking passou do 20º para o 51º lugar, entre 179 nações. O fundador do instituto, Staffan Lindberg, afirmou que o governo enfraqueceu mecanismos de controle, politizou órgãos públicos e de fiscalização e pressionou o Judiciário.

A professora de relações internacionais da Unifesp Regiane Bressan aponta desgaste dos governos, voto de protesto, insatisfação dos eleitores e alternância de poder como fatores da instabilidade regional. Para ela, a América Latina vive uma “onda azul”, com a chegada de forças conservadoras ao governo de Argentina, Chile, Equador, Bolívia, Panamá, Peru e Colômbia.

Bressan também cita riscos de ingerência estrangeira, como ameaças tarifárias, sanções, restrições de vistos, financiamento direto e campanhas digitais coordenadas. Ela afirma, porém, que as mudanças políticas e os ataques aos sistemas eleitorais são influenciados principalmente por fatores domésticos, sem evidência de um plano coordenado pelos Estados Unidos.

A influência americana na região tem raízes na Doutrina Monroe, criada em 1823, e inclui intervenções documentadas na Guatemala, no Chile e no Brasil. Após a queda do muro de Berlim, a política externa dos Estados Unidos passou a priorizar democracia, livre comércio e integração. Em 2013, John Kerry declarou na OEA que “a era da Doutrina Monroe acabou”. Sob o segundo mandato de Trump, porém, Bressan identifica o uso de pressão econômica, redes sociais e alianças com lideranças ideologicamente próximas.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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