A inclusão das mulheres na linguagem da Carta das Nações Unidas foi uma das principais disputas enfrentadas por Bertha Lutz durante a Conferência de San Francisco, em 1945. A brasileira defendia que o documento mencionasse expressamente a igualdade de direitos entre homens e mulheres, em vez de deixar essa interpretação implícita no uso da palavra “homem”.
Bertha chegou aos Estados Unidos pouco mais de um mês depois do fim da Segunda Guerra Mundial no front europeu. Sua missão oficial era pedir a revisão da Carta da ONU, que seria assinada na própria conferência. O diplomata Pedro Leão Veloso, porém, permitiu que ela também articulasse outras pautas.
A historiadora Teresa Cristina de Novaes Marques afirma que a feminista encontrou resistência entre delegadas que esperava ter como aliadas, como a inglesa Ellen Wilkinson e a americana Virginia Gildersleeve. O apoio veio da mexicana Amalia de Castillo Ledón e de Minerva Bernardino, da delegação dominicana. As duas trabalharam juntas durante as madrugadas, apesar das divergências pessoais.
O preâmbulo acabou registrando a igualdade de direito dos homens e das mulheres. Para a historiadora Branca Moreira Alves, que entrevistou Bertha em 1974, a formulação tinha importância porque a experiência brasileira mostrava que referências genéricas aos cidadãos não garantiam direitos às mulheres.
Uma trajetória entre ciência e política
Nascida em uma família ligada à ciência e à enfermagem, Bertha era filha do cientista Adolfo Lutz e da enfermeira inglesa Amy Fowler. Estudou na Europa nos anos 1910 e, em 1919, fundou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, organização que liderou a mobilização pelo sufrágio.
A atuação contribuiu para a conquista do voto feminino no Brasil, em 1932. Em 1936, Bertha assumiu como deputada federal; no ano seguinte, foi cassada pelo Estado Novo de Getúlio Vargas. Também trabalhou durante décadas no Museu Nacional, como bióloga especializada em anfíbios, e foi uma das primeiras mulheres a ingressar no funcionalismo público por concurso.
A pesquisadora Karen Sacconi relaciona a defesa da paz feita por Bertha à experiência de ter vivido a Primeira Guerra Mundial em Paris. A brasileira também promoveu congressos feministas nos quais o tema esteve presente.
O funeral e as contradições
Bertha morreu no Rio de Janeiro em 17 de setembro de 1976. Na manhã seguinte, no cemitério São João Batista, um grupo de idosas levou o caixão até a sepultura. Elas cumpriam um acordo para que nenhum homem tocasse no esquife.
A cena foi associada à convicção de Bertha de que as mulheres não deveriam ser apadrinhadas por homens. Em 1932, ela havia recusado receber garçonetes que buscavam apoio contra uma regra que proibia o trabalho feminino noturno porque estavam acompanhadas de um advogado.
A ativista também recebeu críticas por não romper barreiras de classe em suas reivindicações. A jornalista Cibele Tenório registrou que as ações da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino em favor das trabalhadoras tinham caráter assistencialista e não incluíam as próprias mulheres operárias.
Bertha, que era branca e abastada, apoiava o voto feminino, mas não se manifestou em defesa do direito ao divórcio, aprovado em 1977. Para Branca Moreira Alves, a formulação da Carta da ONU conservou, ainda assim, uma importância política e simbólica para políticas nacionais ao longo das décadas.


