BERLIM — O governo de Donald Trump tenta influenciar a eleição presidencial brasileira, na avaliação de Peter Birle, diretor de pesquisa do Instituto Ibero-Americano de Berlim e avaliador do Brasil no índice BTI, da Fundação Bertelsmann. Para o cientista político alemão, a estratégia de Washington inclui tarifas, sanções e revogação de vistos e busca favorecer um governo de Bolsonaro.
Birle considera a política americana agressiva e afirma que ela pode produzir resistência no Brasil. Ele compara o cenário atual com a eleição argentina de 1946, quando os Estados Unidos tentaram impedir a ascensão de Juan Perón por meio do embaixador Spruille Braden. O lema “Braden ou Perón” foi usado pelo peronismo em defesa da soberania nacional, e Perón venceu.
Na Argentina atual, segundo Birle, a interferência de Trump funcionou. Antes das eleições legislativas de outubro de 2025, o governo americano condicionou ajuda financeira a uma vitória de partidos próximos de Javier Milei. No Brasil, porém, ainda não é possível saber o efeito da pressão externa. Para Birle, essa não é uma política inteligente, pois tende a gerar mais resistência do que uma postura construtiva.
Eleição e cenário político
O cientista político afirma que a campanha brasileira passou a ser dominada por economia, segurança pública e crime organizado. Na comparação com 2022, a democracia e o risco de autoritarismo deixaram de ocupar o centro do debate. Ele avalia que a situação democrática melhorou nos dois primeiros anos do governo Lula em relação aos dois últimos anos de Bolsonaro, com instituições mais estáveis e desenvolvimento positivo na área socioeconômica.
Birle também menciona a permanência da polarização e diz que quase 45% dos eleitores afirmam que nunca votariam em Lula. Embora avalie que o desenvolvimento econômico tenha sido positivo nos últimos quatro anos, ele ressalta os juros elevados, com a Selic em 14%, e as dificuldades enfrentadas por parte da população. Também cita a queda da pobreza e da pobreza extrema.
As pesquisas, segundo o especialista, indicam um provável segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, com alguma vantagem para Lula, mas sem garantia. A presença de mais candidatos à direita do que à esquerda pode dificultar o desempenho do presidente, enquanto o resultado permanece em aberto.
Relações internacionais e segundo mandato
Birle não espera uma reação europeia semelhante à interferência americana. Segundo ele, a Europa pretende preservar uma boa relação com o governo dos Estados Unidos. O especialista avalia que a América Latina se tornou um campo político muito à direita, o que dificulta a retomada, pelo governo Lula, do papel regional exercido nos governos Lula 1 e 2.
Para Birle, o Brasil não conseguiu recriar o regionalismo latino-americano da primeira década do século 21. Ele defende maior cooperação entre os países da região, embora ressalte que o modelo não seria igual ao da integração europeia.
O cientista político vê risco em um eventual segundo governo de Flávio Bolsonaro. A experiência internacional, afirma, mostra que mudanças mais radicais podem ocorrer no segundo mandato. Ele também diz que Flávio pode adotar medidas das quais não fala atualmente, por tentar se apresentar como mais moderado, e menciona a possibilidade de uma anistia.
Sobre o Supremo Tribunal Federal, Birle reconhece a importância da Corte na defesa da democracia durante o governo Bolsonaro. Ao mesmo tempo, considera compreensível a crítica à politização do tribunal e afirma que uma postura menos política e mais moderada poderia ser aconselhável.


