O presidente francês, Emmanuel Macron, determinou a elaboração de um plano para proteger infraestruturas críticas e instalações da indústria de defesa diante do aumento de ataques híbridos atribuídos à Rússia. O anúncio foi feito em Paris, nesta sexta-feira (18/9), após uma reunião com líderes partidários sobre os efeitos das guerras no Oriente Médio e na Ucrânia sobre a segurança.
Macron afirmou: "A intenção é nos intimidar e romper nossos esforços de apoio à Ucrânia. O resultado será exatamente o oposto." Ele também anunciou que a França convocará uma reunião do G7 para discutir energia e os estoques de gás junto à Comissão Europeia, incluindo a possibilidade de utilizar reservas estratégicas.
Incidentes recentes e respostas oficiais
A avaliação francesa ocorre depois de um drone russo atingir um trem de passageiros perto da fronteira entre a Ucrânia e a Polônia. O ataque ocorreu no domingo passado, pouco depois da passagem do ex-primeiro-ministro britânico Boris Johnson e de autoridades europeias de segurança pela mesma linha férrea. A Ucrânia informou que os passageiros foram retirados minutos antes, em Yahodyn, e que a locomotiva foi atingida.
Na Alemanha, um drone com explosivos foi enviado ao Aeroporto de Leipzig/Halle, que participa de operações logísticas de apoio a Kiev. O ministro do Interior alemão, Alexander Dobrindt, classificou o episódio como parte de um padrão de operações híbridas russas na Europa. O embaixador dos Estados Unidos na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Matthew Whitaker, chamou o caso de uma das ações híbridas mais preocupantes já registradas no continente.
Alemanha e Rússia fecharam os centros culturais uma da outra, incluindo o consulado russo em Bonn. Moscou negou participação no episódio de Leipzig e rejeitou as acusações alemãs como infundadas. O governo russo também nega responsabilidade por outros incidentes.
Sabotagem, influência e recrutamento
Especialistas identificam uma sequência de ações desde a invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022. A lista inclui incêndios, vandalismo, sabotagem, tentativas de assassinato, ataques cibernéticos, violações do espaço aéreo e interferência política.
Um levantamento do centro de estudos Globsec registrou 151 casos de atividade russa contra a Europa entre fevereiro de 2022 e fevereiro de 2026, embora a instituição estime que o total real seja maior. Polônia, França, Alemanha, Lituânia, Estônia e Reino Unido aparecem entre os países afetados. O estudo indica que o apoio à Ucrânia é o principal fator associado à escolha dos alvos.
A pesquisadora Emily Ferris, do centro de estudos Rusi, afirma que a frequência e a escala dos episódios aumentaram desde 2022. Para ela, Moscou tenta ampliar a divisão política no Ocidente e elevar o custo do apoio da Otan à Ucrânia sem ultrapassar o limite de um conflito aberto. Maksym Beznosiuk, da Globsec, diz que o Kremlin procura testar a prontidão da aliança e explorar diferenças políticas e jurídicas entre seus integrantes.
As acusações também envolvem campanhas de desinformação com contas falsas, documentos fabricados e conteúdo produzido por inteligência artificial. Na França, autoridades investigaram operações de influência ligadas à Rússia contra figuras políticas antes das eleições presidenciais de 2027. Na Alemanha, houve alertas sobre esforços para enfraquecer a confiança nas instituições democráticas antes de votações regionais.
Segundo o relatório da Globsec, 95% dos 172 indivíduos envolvidos em ataques ligados à Rússia na Europa eram cidadãos sem vínculo formal com os serviços de inteligência russos. Analistas afirmam que Moscou passou a recrutar pessoas pela internet, dificultando a atribuição direta dos atos ao governo russo.
Pressão sobre infraestrutura e segurança
A Polônia, descrita como pilar logístico da Otan para o abastecimento da Ucrânia, mobilizou até 10 mil soldados depois de uma explosão, em novembro de 2025, em uma ferrovia usada para entregas. O governo polonês atribuiu o episódio à Rússia, que negou envolvimento. Em janeiro, Varsóvia assinou contratos de mais de R$ 21 bilhões para sistemas de defesa contra drones ao longo da fronteira leste.
Suspeitas relacionadas a drones também foram registradas perto de instalações militares, aeroportos e infraestruturas críticas na Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Países Baixos, França, Noruega, Suécia e Reino Unido. Desde 2024, embarcações associadas à chamada frota paralela russa também foram relacionadas a danos em cabos e oleodutos submarinos, além de atividades de vigilância e uso de drones no Mar Báltico e no Mar do Norte. A Rússia rejeitou essas acusações.
A Lituânia acusou, em janeiro, o serviço de inteligência militar russo GRU de organizar incêndios criminosos em 2024 contra uma fábrica que fornece scanners de ondas de rádio ao Exército ucraniano. Seis cidadãos da Espanha, Colômbia, Cuba, Rússia e Bielorrússia foram presos e podem receber penas de até 15 anos de prisão se condenados.
A Otan e os países da União Europeia informaram que reforçam a cooperação de inteligência, a proteção de infraestruturas críticas e as sanções contra pessoas, organizações e embarcações ligadas à Rússia. Especialistas defendem, porém, regras mais claras para classificar atos de sabotagem como ações hostis de Estado e maior coordenação entre os governos.
Risco de escalada
O presidente russo, Vladimir Putin, afirma que o país não pretende atacar a Europa. Já o ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, advertiu que o envio de tropas europeias à Ucrânia seria interpretado como declaração de guerra. Na sexta-feira, a Rússia voltou a dizer que instalações militares britânicas na Ucrânia usadas contra seu território seriam alvos legítimos.
Ferris e Beznosiuk consideram improvável uma guerra direta entre Rússia e Otan, mas esperam a continuidade das operações híbridas. Beznosiuk avalia que Moscou pode ampliar essas ações até 2027, recorrendo a sabotagem, ciberataques e desinformação.
Os dois especialistas também alertam para uma escalada não planejada. Danos a civis, acidentes e episódios politicamente sensíveis poderiam provocar uma reação grave. Ferris defende a retomada do Conselho Otan-Rússia, cuja última reunião ocorreu em janeiro de 2022, para reduzir o risco de interpretações equivocadas.


