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Modelos climáticos indicam que o aquecimento pode ser maior que o previsto

A redução dos aerossóis retirou parte do resfriamento atmosférico, mas estudos apontam que nuvens e oceanos também podem acelerar o aquecimento.

Modelos climáticos indicam que o aquecimento pode ser maior que o previsto
Foto: AFP via Getty Images

Modelos climáticos que reproduziram melhor o aquecimento recente e o desequilíbrio energético da Terra são também os que indicam maior sensibilidade do clima aos gases do efeito estufa. Uma análise liderada por Reto Knutti, do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, estima que o mesmo volume de emissões possa produzir cerca de 25% mais aquecimento do que se imaginava.

A hipótese ainda envolve incertezas, mas muda a avaliação sobre a velocidade das mudanças climáticas. Com as políticas atualmente em vigor, a projeção é de aproximadamente 2,8 °C de aquecimento até o final do século. Para Piers Forster, da Universidade de Leeds, novas evidências podem levar a um resultado mais próximo de 3,5 °C, caso o padrão geral de emissões permaneça semelhante.

O papel da poluição por enxofre

A redução da poluição por enxofre contribuiu para a aceleração recente das temperaturas, mas não substitui o dióxido de carbono como principal causa do aquecimento global. A queima de petróleo e carvão libera dióxido de enxofre, que forma aerossóis de sulfato. Essas partículas refletem parte da luz solar e também influenciam a formação das nuvens.

Ao funcionar como sementes para a condensação do vapor d’água, os aerossóis podem tornar algumas nuvens mais brilhantes ou prolongar sua duração. Com isso, mais luz é refletida e menos energia chega à superfície. A poluição dos navios pode inclusive formar rastros brilhantes sobre o oceano, visíveis do espaço.

Medidas de controle da poluição reduziram as emissões de enxofre na Europa, na América do Norte e na China. Novas regras também diminuíram a poluição do setor de navegação. Como os aerossóis permanecem na atmosfera por alguns dias ou semanas, o efeito de resfriamento desaparece rapidamente quando as emissões caem. O dióxido de carbono, por outro lado, permanece no sistema climático por séculos.

Um estudo estima que a redução do enxofre tenha acrescentado cerca de meio grau ao aquecimento do verão no centro-oeste da Europa desde 1980. Forster calcula que a queda da poluição por aerossóis possa adicionar de 0,05 °C a 0,1 °C ao aquecimento global por década. Os gases do efeito estufa, porém, acrescentariam atualmente cerca de 0,2 °C por década.

“Os aerossóis mascararam parte do aquecimento causado pelos gases do efeito estufa desde o princípio”, afirmou Øivind Hodnebrog, do instituto de pesquisa climática Cicero. A retirada dessa poluição não causa as mudanças climáticas; ela remove parte do resfriamento que antes retardava o aumento das temperaturas.

Nuvens e energia acumulada

Os cientistas também analisam a diferença entre a energia que a Terra recebe do Sol e o calor que perde para o espaço. Esse desequilíbrio energético praticamente triplicou ao longo das últimas duas décadas, segundo Knutti, embora o resultado exato dependa dos anos comparados.

As nuvens podem ajudar a explicar parte do fenômeno. O aquecimento de algumas regiões do oceano pode reduzir a cobertura de nuvens baixas. Como elas são brilhantes e a superfície oceânica é escura, a diminuição da cobertura permite que mais luz solar seja absorvida pelo mar na forma de calor.

Forma-se, assim, um ciclo: o aquecimento reduz as nuvens, a menor cobertura aumenta a entrada de energia solar e essa energia intensifica o aquecimento. A Organização Meteorológica Mundial afirma que os oceanos se aqueceram, nas últimas duas décadas, com rapidez mais de duas vezes maior do que no período entre 1960 e 2005.

Paulo Ceppi, do Imperial College de Londres, avalia que a retroalimentação entre as mudanças climáticas e as nuvens é mais importante do que a poluição por enxofre para explicar a redução recente das nuvens baixas. A participação exata de cada fator, contudo, ainda não é conhecida. “Não sabemos”, disse Knutti ao ser questionado sobre essa divisão.

Incerteza sobre o ritmo futuro

As nuvens estão entre os elementos mais difíceis de representar nas simulações climáticas. Por isso, modelos que recebem a mesma quantidade de gases do efeito estufa podem projetar níveis diferentes de aquecimento.

A equipe de Knutti comparou essas projeções com as observações recentes. Os modelos que melhor anteciparam o aquecimento e o aumento do desequilíbrio energético foram os que indicaram maior sensibilidade climática. Para os pesquisadores, isso sugere que as versões que projetam mais aquecimento podem estar mais próximas do comportamento observado.

Os três últimos anos foram os mais quentes já registrados. O Serviço Meteorológico do Reino Unido afirma que 2027 “muito provavelmente” ultrapassará 2024 como o ano mais quente da história. Ainda assim, Forster ressalta que uma aceleração observada em um período curto não significa necessariamente que o ritmo continuará aumentando. O registro de satélites é limitado, e as variações naturais, como o El Niño, podem alterar temporariamente as temperaturas.

A redução dos aerossóis explica apenas uma parcela do aquecimento recente. A conclusão central permanece a mesma: quanto mais gases do efeito estufa forem emitidos, mais quente ficará o planeta. Se a sensibilidade climática for de fato maior do que as estimativas anteriores, o mesmo nível de emissões poderá provocar um aquecimento mais intenso, elevando os riscos de ondas de calor, enchentes, secas e incêndios florestais.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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