BERLIM — A política habitacional será o principal teste para a coalizão que A Esquerda tenta formar com os Verdes e o SPD depois de conquistar a maior votação na eleição de domingo (20). O partido não obteve maioria, mas pode liderar o governo da cidade-estado, onde a prefeita também exerce atribuições de governadora.
A principal proposta de Elif Eralp é aplicar a chamada socialização, prevista no direito alemão para situações em que a função social da propriedade privada justifique sua transferência mediante indenização. A medida alcançaria mais de 200 mil apartamentos. Os cálculos divergem: A Esquerda estima custo de € 7 bilhões (R$ 40,9 bilhões), enquanto o mercado calcula € 40 bilhões (R$ 235 bilhões).
Pressão sobre o mercado imobiliário
A Vonovia, principal empresa do setor e proprietária de 130 mil apartamentos em Berlim, teve forte queda nas ações na última semana, na Bolsa de Frankfurt. Em 2021, um referendo sobre a transferência de imóveis recebeu apoio de 58% da população da capital, mas a proposta não avançou no Legislativo.
A moradia foi o problema urgente mais citado pelos eleitores neste ano, com o dobro das menções ao transporte, que ficou em segundo lugar. O cenário inclui 85% dos domicílios berlinenses ocupados por inquilinos, contra 61% em Paris e 29% em São Paulo. O preço do metro quadrado subiu 78% em nove anos, e a cidade precisa de 211 mil novos domicílios até 2040.
Apenas A Esquerda e os Verdes colocaram o tema no centro da campanha. O partido de Eralp recebeu 43% dos votos entre eleitores de 16 a 24 anos e 48% entre os de 25 a 34 anos. A votação concentrou-se em um eleitorado jovem, feminino e urbano.
Trajetória e disputas internas
Eralp tem 45 anos, nasceu em Munique e foi criada em Hamburgo. Filha de socialistas que deixaram a Turquia após um golpe de Estado nos anos 1980, estudou direito, estagiou em um tribunal distrital e entrou para A Esquerda em 2017, no dia em que a AfD chegou ao Bundestag. Ela mora de aluguel no bairro de Kreuzberg com o marido e dois filhos.
Na campanha, Eralp falou em turco e fez campanha de porta em porta no próprio distrito. No discurso da vitória, agradeceu a um integrante da Anistia Internacional por ter ajudado sua família em um abrigo de refugiados e afirmou: "Fizemos história, amigos".
A renovação de A Esquerda atraiu movimentos de imigrantes, inclusive grupos pró-Palestina. Eralp classificou o governo de Israel como "extremista de direita", declaração que provocou acusações de antissemitismo. Na sexta-feira (25), ela chamou as acusações de alarmismo e disse que os judeus deveriam se sentir seguros na cidade.
Uma entidade judaica pediu aos Verdes e ao SPD que não entrassem na coalizão para evitar a normalização do antissemitismo. Em resposta, 150 intelectuais judeus de Berlim criticaram o que chamaram de instrumentalização do termo pela própria comunidade e pela imprensa.
Negociação com os aliados
A formação do governo ocorrerá enquanto A Esquerda enfrenta também questionamentos sobre a presença de integrantes ligados ao crime organizado. Um parlamentar foi afastado depois de ser flagrado conversando com representantes desse meio. Eralp disse que um homem apontado como chefe de uma facção foi convidado a deixar uma festa do partido quando foi reconhecido.
Os serviços de segurança alemães classificam a AfD como de extrema direita, mas não fazem o mesmo com A Esquerda, embora alas e integrantes da legenda sejam considerados extremistas ou radicais. A AfD também foi a mais votada em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e conquistou a maior bancada em Saxônia-Anhalt. Em Berlim, a negociação com Verdes e SPD terá de definir os limites para o radicalismo e o futuro da proposta de socialização dos apartamentos.


