A percepção sobre a principal ameaça terrorista nos Estados Unidos mudou desde os atentados de 11 de setembro de 2001. Pesquisa Reuters/Ipsos realizada em agosto mostra que 33% dos entrevistados apontam o terrorismo doméstico como o maior risco, enquanto 20% citam o terrorismo estrangeiro. Outros 42% mencionam atos aleatórios de violência, como ataques a tiros.
Em 2013, o resultado era inverso: 21% consideravam a ameaça doméstica a mais preocupante, e 28% indicavam a estrangeira. Para Javed Ali, professor da Universidade de Michigan desde 2018 e ex-integrante de órgãos de segurança dos Estados Unidos, a alteração reflete a forma como os ataques passaram a ocorrer no país.
Segundo Ali, ações recentes foram cometidas por americanos radicalizados, que atuaram sozinhos e sem treinamento externo. “O terrorismo ainda está conosco. Vinte e cinco anos depois do 11 de Setembro, ele apenas parece diferente”, afirmou.
Uma lembrança preservada
Apesar da mudança na avaliação sobre a origem do perigo, a memória dos atentados continua presente. Levantamento do Pew Research Center indica que 83% dos adultos nascidos antes de 11 de setembro de 2001 ainda sabem exatamente onde estavam e o que faziam quando receberam a notícia. Entre os que tinham mais de dez anos na época, o índice chega a 93%.
Ali tinha 33 anos quando os ataques ocorreram. Na manhã daquele dia, dirigia para o trabalho quando ouviu no rádio as primeiras informações sobre um avião que havia atingido o World Trade Center. Cerca de meia hora antes de um terceiro avião sequestrado atingir o Pentágono, ele passou de carro perto do local.
Embora não tenha visto o impacto, Ali relatou ter observado a fumaça subindo do prédio próximo ao escritório. “Não me lembro de muita coisa sobre 10 de setembro, mas me lembro de tudo sobre o dia inteiro de 11 de setembro”, disse.
No fim da tarde, ao deixar o trabalho, encontrou as ruas praticamente vazias. A experiência, segundo ele, foi semelhante a estar em um filme de apocalipse zumbi. Os ataques provocaram medo, raiva e tristeza generalizados e levaram a um amplo apoio a uma resposta militar contra os responsáveis.
Segurança e decisões posteriores
A reação americana incluiu a criação da TSA, agência voltada ao reforço da segurança do sistema de transportes, especialmente nos aeroportos, e do Departamento de Segurança Interna, conhecido como DHS. Ali ingressou no órgão pouco depois de sua criação, com a tarefa de proteger infraestruturas que poderiam ser escolhidas como alvos.
Entre 2002 e 2018, ele também trabalhou na Agência de Inteligência de Defesa, a DIA, e no FBI, além de ocupar funções relacionadas ao combate ao terrorismo. Na avaliação de Ali, as medidas adotadas ajudaram a evitar um novo ataque estrangeiro com a mesma dimensão.
A resposta também envolveu o uso da força militar contra grupos terroristas. A invasão do Afeganistão derrubou o regime Talibã, que abrigava a Al Qaeda, e tropas americanas atuaram em outros países contra grupos jihadistas. Ali considera que a pressão era necessária porque a organização continuava tentando se adaptar.
Ele, porém, avalia que decisões tomadas depois dos ataques foram equivocadas. Entre elas está a criação de Guantánamo para manter suspeitos de terrorismo fora do sistema criminal convencional dos Estados Unidos. Vinte e cinco anos depois, os processos contra os acusados de planejar os atentados ainda não foram concluídos, segundo Ali.
O especialista também critica os programas de detenção e interrogatório do governo de George W. Bush, que incluíram técnicas como o afogamento simulado, e os programas secretos de vigilância da NSA, incluindo a coleta em massa de registros telefônicos de americanos.
A avaliação das consequências inclui ainda as guerras que se seguiram aos ataques. Para Ali, a invasão do Iraque foi outro erro, porque não houve evidência de participação do país nos atentados de 11 de setembro.
As guerras pós-2001 mataram milhares de militares americanos, deixaram dezenas de milhares de feridos e produziram efeitos duradouros sobre a saúde física e mental de veteranos. Também provocaram a morte de grande número de civis nos países atingidos. Os custos financeiros desses conflitos são estimados em trilhões de dólares.
Para Ali, o terrorismo continua sendo um desafio permanente, mas assume formas diferentes em períodos diferentes. O risco atual, afirma, está menos ligado a organizações estrangeiras que enviam integrantes treinados aos Estados Unidos e mais a pessoas que já estão no país, se radicalizam e agem por conta própria.


