O jogo Go é apresentado como uma referência para compreender a antecipação de cenários no direito processual e o papel da inteligência artificial. De origem chinesa, o jogo é disputado por dois participantes, que posicionam pedras pretas e brancas nas intersecções de um tabuleiro, buscando controlar territórios e capturar peças adversárias.
Em regra, o tabuleiro tem 19×19 linhas. A pontuação considera o território dominado e as pedras capturadas. A dinâmica exige avaliar não apenas o resultado imediato de cada jogada, mas também as posições que ela pode produzir dezenas de movimentos adiante. Essa característica é relacionada à necessidade de as partes, em um processo judicial, anteciparem as iniciativas da parte contrária.
AlphaGo e a capacidade de previsão
O documentário “AlphaGo”, lançado em 2017 e disponível no YouTube, registra o desafio realizado em Seul entre 9 e 15 de março de 2016. O programa desenvolvido pela Google DeepMind venceu Lee Sedol, 18 vezes campeão mundial de Go, por 4 a 1.
A equipe liderada por Demis Hassabis, fundador da DeepMind, buscava demonstrar que a máquina poderia superar o jogador por sua capacidade de projetar mais movimentos e realizar jogadas pouco acessíveis ao raciocínio humano. Entre elas estava o movimento 37, feito na segunda partida e inicialmente interpretado por comentaristas e especialistas como um possível erro. Ao longo do jogo, porém, a jogada mostrou valor estratégico.
O episódio é associado ao desenvolvimento de regras computacionais presentes nos modelos de inteligência artificial atualmente conhecidos, como Claude, ChatGPT e Gemini. A relação entre Go e IA também decorre da variedade de movimentos do jogo, descrita como cerca de dez vezes maior que a do xadrez.
Estratégia no contencioso
No direito processual, a inteligência artificial pode auxiliar na previsão de cenários e na execução de tarefas jurídicas de diferentes níveis de complexidade. Ferramentas preditivas podem projetar o comportamento de um órgão julgador, interpretar normas e fornecer probabilidades.
Para advogados que atuam no contencioso estratégico, a antecipação envolve avaliar provas, formular teses, preparar matérias para os tribunais superiores e decidir sobre recursos ou incidentes processuais. Também inclui escolhas como o foro, o momento de transigir ou resistir e a dimensão do risco.
A inteligência artificial pode ampliar a capacidade de analisar questões futuras, mas o texto ressalta que estratégia ainda depende do juízo profissional. A escolha dos caminhos processuais permanece distinta da interpretação de normas e da entrega de probabilidades por uma ferramenta. Assim, prever o próximo movimento da parte contrária aparece como uma característica comum ao Go e à atuação no contencioso.


