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Cartas atribuídas a mortos são questionadas por famílias e entidades espíritas

Relatos apontam uso de informações públicas e dados entregues antes das sessões; Máira Rocha não aceitou gravar entrevista sobre as acusações.

Cartas atribuídas a mortos são questionadas por famílias e entidades espíritas
Foto: Reprodução/Globo

Famílias que procuraram Máira Rocha para receber cartas psicografadas relatam ter encontrado nas mensagens informações disponíveis em redes sociais, reportagens e documentos entregues antes das sessões. As denúncias envolvem ainda ameaças, charlatanismo e estelionato. Máira, advogada e servidora do Ministério da Saúde, não aceitou gravar entrevista para responder às acusações.

A médium é conhecida em Brasília e criou, no começo deste ano, a Casa da Caridade Inácio Daniel. O centro atende cerca de 5 mil pessoas por mês, depende de doações e distribui alimentos, roupas e agasalhos. Parte das atividades é dedicada às chamadas cartas consoladoras, pelas quais as famílias fazem contribuições.

Informações entregues antes da psicografia

Marina Escames procurou Máira após a morte do marido, Thiago, vítima de leucemia. Ela afirma que precisava de uma mensagem para si e para Matteo, seu filho caçula, que tinha 3 anos quando o pai morreu. Antes da sessão, Marina forneceu o nome completo, o CPF, uma fotografia e detalhes sobre a morte do marido.

A comerciante Marcela Magalhães também buscou a médium depois que seu filho Henrique, de 18 anos, morreu em um acidente de carro. Durante uma transmissão ao vivo, Máira associou Henrique a um jogador de futebol. Marcela descobriu que a informação coincidia com uma descrição equivocada publicada em uma reportagem sobre o acidente, baseada em uma fotografia do rapaz com uniforme esportivo.

Em outro momento, a médium relacionou Henrique a dois jovens que apareciam na mesma imagem. Marcela explicou que a fotografia era uma montagem de uma campanha de alimentos realizada durante a pandemia. Os três haviam morrido em épocas e circunstâncias diferentes: Henrique em fevereiro de 2020, João em abril de 2020 e Letícia em 2005.

O pesquisador e youtuber Guga Guimarães afirmou que o cruzamento de notícias, redes sociais e outros dados públicos é uma prática usada em investigações de golpes online. O escritor e pesquisador espírita Pedro Camilo também alertou que informações fornecidas antes da sessão e prazos longos para a entrega da carta podem permitir uma busca detalhada sobre a família.

Marina relata que, antes da psicografia, participou de uma fila de abraços. Segundo ela, Máira perguntou o nome completo de Thiago, a causa da morte e recebeu uma foto. Durante uma palestra posterior, a médium mencionou que havia conversado com um marido que dizia amar a esposa. A expressão usada coincidia com uma frase escrita por Thiago em uma mensagem antiga publicada ou armazenada nas redes sociais de Marina.

A carta também mencionava uma tatuagem de âncora, o consumo de chá de camomila durante o tratamento e um episódio de bullying vivido por Matteo. Marina identificou os dois primeiros elementos em fotos e vídeos disponíveis na internet. O episódio envolvendo o menino, porém, havia sido contado por ele em uma carta entregue diretamente à médium antes da sessão.

Erros e divergências nas cartas

Diva Mascarenhas Borges encontrou problemas semelhantes na mensagem atribuída ao pai. A carta mencionava a mulher dele como se estivesse viva, embora ela tivesse morrido um ano antes. Também usava nomes de registro de dois filhos adotivos que não eram empregados pela família e trazia uma data incorreta para o aniversário do pai. A informação sobre o nascimento em 5 de maio de 1918 aparecia em um blog de Jequié, cidade ligada à família.

Silvano registrou ocorrência após receber uma carta atribuída à mãe, morta no ano 2000. A mensagem listava netos, mas incluía uma pessoa que não era neta dela e deixava outro nome de fora. Ele apresentou novas ocorrências por charlatanismo e ameaça.

Antônio Carlos Felizola, ex-voluntário da Casa da Caridade, disse que começou a desconfiar depois que pessoas que haviam recebido cartas passaram a questionar o conteúdo. Ele também relatou discussões entre Máira e o marido, que teria acusado a médium de fraude.

A Federação Espírita do Distrito Federal recebeu outras denúncias. Paulo Costa, presidente da entidade, afirmou que famílias enlutadas encontraram nas cartas informações que já estavam em jornais, na internet ou nas redes sociais. Jorge Godinho, presidente da Federação Espírita Brasileira, criticou os leilões de roupas e objetos usados por Máira e disse que a doutrina espírita orienta o serviço desinteressado.

Investigações e manifestações

Sete lideranças espíritas assinaram um manifesto e apresentaram notícia-crime contra Máira por estelionato, charlatanismo e possível violação do artigo 232 do ECA, que trata de submeter criança ou adolescente a vexame ou constrangimento. A família de Marina afirma que Matteo entrou em depressão depois de descobrir que a informação sobre o bullying havia sido obtida durante a conversa com a médium.

Há registros policiais contra Máira em pelo menos cinco estados por estelionato, calúnia, difamação e ameaça. O Ministério Público recebeu acusações de apropriação indébita, desvio de recursos e rede de influência com servidores públicos. As vítimas também relatam medo de denunciar por causa de ameaças.

O advogado criminalista Luiz Henrique Machado explicou que o chamado estelionato espiritual ocorre quando a fé é usada para apresentar como extraordinárias informações obtidas em bancos de dados ou na internet. Máira publicou mensagens afirmando que poderia expor pessoas que a acusassem de buscar dados online e que preferia responder a um processo cível a deixar de mencionar os nomes dos críticos.

Pesquisadores ouvidos ressaltaram que existem estudos sobre psicografia no Brasil há pelo menos 15 anos. O Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde, da Universidade Federal de Juiz de Fora, seleciona médiuns voluntários e participantes sem contato prévio para monitorar as sessões. Alexander Moreira-Almeida, responsável pelo núcleo, afirmou haver evidências de médiuns capazes de obter informações precisas sobre pessoas mortas sem meios convencionais.

Jorge Hessen, pesquisador do espiritismo, recomendou cautela com falsos médiuns e afirmou que mensagens forjadas agravam o sofrimento de quem está em luto. Pedro Camilo defendeu que médiuns identificados em fraude sejam denunciados para evitar que outras pessoas sejam enganadas.

Máira Rocha foi procurada por mensagens e ligações para comentar as acusações, mas não aceitou gravar entrevista.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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