SÃO PAULO — Cinco anos após a prisão de Glaidson Acácio dos Santos, a Justiça ainda tenta localizar e esclarecer o destino de uma fortuna mantida em criptomoedas. Conhecido como Faraó dos Bitcoins, ele é acusado de comandar uma estrutura que movimentou mais de R$ 38.223.489.348,97 e deixou uma lista de credores com mais de 77 mil empresas e pessoas físicas.
Parte dos ativos digitais pode estar em uma carteira fria, dispositivo desconectado da internet e guardado em um cofre da Polícia Federal. O acesso depende de uma senha que, segundo Glaidson, somente ele conhece. Em depoimento, questionado se o valor armazenado seria suficiente para pagar os credores, ele respondeu: “Dá. Dá. Dá.”
Glaidson está preso desde a Operação Kryptos, em 2021. Na Justiça Federal, responde por organização criminosa e crimes contra o sistema financeiro, incluindo oferta irregular de investimentos, operação de instituição financeira sem autorização e gestão fraudulenta. O Ministério Público Federal pediu a condenação dele, de Mirelis e de outras 15 pessoas. Se condenados, os acusados podem receber penas superiores a 37 anos de prisão.
Como funcionava a G.A.S.
Fundada em Cabo Frio, no Rio de Janeiro, a G.A.S. Consultoria e Tecnologia Ltda. atraía clientes com a promessa de rendimento mensal de 10% sobre investimentos em criptomoedas. Glaidson afirmou que captava recursos de milhares de pessoas e usava esse volume para operar no mercado digital.
Ele declarou à Justiça que, com grande quantidade de criptomoedas, conseguia influenciar preços e atuar em conjunto com outros investidores. Também afirmou que movimentava entre 200 e 300 milhões de dólar em uma operação. Ao ser questionado pelo Ministério Público Federal sobre a legalidade desse procedimento, respondeu que se tratava de falta de ética, não de ilegalidade.
A Polícia Federal identificou uma rede informal que movimentou o valor bilionário. Glaidson disse que funcionários viajavam de helicóptero até São Paulo para transportar dinheiro em espécie recebido de clientes. Na cidade, os investidores transferiam os recursos para a carteira da G.A.S.
Participação de Mirelis
Mirelis Diaz Zerpa, mulher e sócia de Glaidson, foi presa em Chicago em 2024, quando era considerada foragida pela Justiça brasileira, e deportada para o Brasil um ano depois. Ela nega ter participado da administração da empresa e afirma que seu trabalho consistia em estudar criptomoedas, multiplicar recursos e fazer operações de compra e venda.
Para o Ministério Público Federal, Mirelis fazia parte do comando do esquema. Ela também responde por organização criminosa e crimes contra o sistema financeiro. Em depoimento, disse que Glaidson mantinha contato com os clientes e que nunca cuidou do controle administrativo dos investimentos.
A investigação identificou que, em agosto de 2021, enquanto Glaidson estava preso e as contas bancárias dele haviam sido bloqueadas, um computador localizado em Kissimmee, na Flórida, acessou a estrutura da empresa. Segundo o Ministério Público Federal, 4,5 mil bitcoins foram transferidos, quantia que equivalia a mais de R$ 1,06 bilhão na época.
Mirelis afirmou que fez resgates com dinheiro próprio, mas negou ter retirado recursos da empresa. A defesa sustenta que os bitcoins foram movimentados para devolver valores aos clientes e nega que ela tenha ficado com R$ 1 bilhão.
Credores e defesa
A massa falida da G.A.S. tem uma dívida próxima de R$ 3 bilhões. Entre os credores está um investidor que afirma ter vendido carro e moto, além de contratar empréstimos, para aplicar mais de 500 mil reais na empresa. Ele disse ter acreditado no negócio porque conhecia pessoas que recebiam os pagamentos regularmente.
Em nota, a defesa de Glaidson afirma que ele é inocente e que as atividades da G.A.S. não configuravam crime contra o sistema financeiro nacional. Os advogados dizem que a suspensão dos pagamentos ocorreu por ordem judicial e contestam a lista de credores, que teria equívocos.
A defesa também nega provas nos processos por homicídio e tentativa de homicídio relacionados a concorrentes da G.A.S. Glaidson é acusado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro de participação nos crimes ocorridos em 2021. Os casos serão julgados pelo tribunal do júri.
Glaidson permanece preso na Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná. Mirelis está presa preventivamente no Rio de Janeiro. A defesa dela afirma que não tinha função administrativa na empresa e que foi orientada a manter pagamentos aos clientes depois da prisão de Glaidson.
O paradeiro das chaves da carteira fria continua sem esclarecimento. Glaidson declarou que não se lembrava da senha naquele momento, mas insistiu que os ativos estavam guardados.


