SÃO PAULO — A Operação Vectura Corrupta investiga a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no transporte coletivo de ônibus da capital paulista. Deflagrada nesta quinta-feira (17) pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo, a ação levou à expedição de um mandado de prisão contra o ex-vereador Milton Leite (União Brasil).
A operação cumpre ordens da 8ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo e da Vara Estadual de Garantias de Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Direitos. A apuração busca esclarecer suspeitas de que integrantes do PCC passaram a administrar empresas de ônibus depois da obtenção de licitações.
Entre os crimes investigados estão lavagem de dinheiro, corrupção de servidores públicos, negociação de propinas para contratações emergenciais, fraudes em certames e financiamento ilegítimo de campanhas para prefeitos e vereadores nas eleições de 2024 e no pleito atual.
Empresas citadas e suspeitas
A Transwolff é apontada pela Justiça e pelo Ministério Público como uma empresa usada para lavar dinheiro do PCC. Uma decisão judicial atribui a Milton Leite a condição de “dono de fato” da empresa e o responsabiliza por operações ligadas à facção. A Transwolff nega vínculo criminoso ou gestão do ex-vereador.
A A2 Transportes também é investigada por suspeita de lavagem de dinheiro. Mensagens interceptadas de supostos “laranjas” tratariam o proprietário, Paulo Korek Farias, como “patrão” do esquema. Korek e a empresa negam envolvimento com o PCC e afirmam que os recursos têm origem em pagamentos e contratos oficiais firmados com a prefeitura. O empresário disse ainda que a operação tem um “forte componente político” e que continuará colaborando com as investigações.
A investigação também cita a Translider, empresa de transporte municipal de Cubatão. Seus sócios, José Daniel Satilite e Claudionor Aparecido Sabino Tomaz, são apontados como supostos “laranjas” do PCC no setor. O celular de Satilite teria mensagens sobre a “Sintonia dos Gravatas”, propinas, armas e drogas.
A UPBus aparece por causa de fases anteriores de investigações sobre possíveis vínculos com o PCC, incluindo a Operação Decúrio. O relatório da Promotoria afirma que pelo menos 12 empresas em operação na cidade de São Paulo seriam controladas direta ou indiretamente pela facção. Além das empresas citadas, o documento menciona Transunião, Alfa Rodobus, Viação Transcap, atual Auto Bless, Move Bus, Pêssego Transportes, Allianz Transportes, atual Allibus, Imperial, Norte Bus e Spencer.
Essas empresas atuam no terceiro lote do sistema municipal, formado por linhas locais e de distribuição que atendem diretamente os bairros paulistanos. O sistema é dividido em três lotes: o primeiro reúne veículos grandes e ligações entre os principais eixos da capital; o segundo abrange ônibus de médio porte e articula bairros a corredores urbanos; e o terceiro concentra linhas de bairro.
Acusações contra Milton Leite
O desembargador Sérgio Ribas afirma na decisão que Milton Leite seria o “dono de fato” da Transwolff e o cita como responsável direto pela operação de empresas controladas pelo PCC. Inquéritos também apontam supostas conexões do político com policiais militares presos que faziam a escolta privada de diretores da Transwolff. Em mensagens enviadas a executivos da empresa, Leite teria sido chamado de “chefe”.
Milton Leite exerceu sete mandatos consecutivos como vereador em São Paulo, de 1997 a 2024, e presidiu a Câmara Municipal por seis anos, nos períodos de 2017-2018 e 2021-2024.
O ex-vereador negou qualquer ligação com o PCC ou com a propriedade da Transwolff. Disse que sua relação com o setor foi institucional, a pedido do falecido prefeito Bruno Covas, e afirmou ser impossível ser dono de uma empresa formada por 600 cooperados. Leite declarou que não estava foragido, mas fora da capital paulista para organizar-se com advogados, e prometeu apresentar-se às autoridades em até 24 horas.
Outros investigados e medidas judiciais
Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans e ex-secretário municipal de Mobilidade, foi preso temporariamente. A investigação afirma que ele mantinha “encontros periódicos” com José Daniel Satilite para tratar de interesses da facção no transporte público. A defesa de Oliveira informou que aguarda acesso aos autos para adotar as medidas legais cabíveis.
A perícia no celular de Satilite é apontada como um dos pilares da apuração. O aparelho continha mensagens sobre a “Sintonia dos Gravatas”, pagamento de honorários, estratégias jurídicas para integrantes presos, financiamento de campanhas, acordos para administrar empresas após licitações, facilidades no Detran e pagamento de propina fora de contratos administrativos no município de Leme.
A decisão judicial também cita diálogos nos quais Claudionor Tomaz negociava fuzis, coletes balísticos e cerca de 200 quilos de pasta-base de cocaína. Nas conversas, a expressão “óleo para produzir ouro branco” seria usada para se referir às drogas.
A Vectura Corrupta é desdobramento direto da Operação Decúrio, deflagrada em agosto de 2024. A ação anterior identificou redes internas de comunicação do PCC, a contaminação de empresas de transporte e um projeto de infiltração no pleito municipal de 2024, com lançamento e apoio financeiro a candidatos.
A Prefeitura de São Paulo ingressou no processo como assistente de acusação. O prefeito Ricardo Nunes criou um grupo de trabalho, com participação da Procuradoria-Geral, da Controladoria, da Secretaria de Mobilidade e da SPTrans, para analisar uma possível intervenção municipal na A2 Transportes. A medida segue o modelo adotado anteriormente com o encerramento do contrato e a intervenção nas viações Transwolff e UPBus.
Foram expedidos mandados de prisão temporária por 30 dias contra 16 pessoas, embora trechos da decisão mencionem 13 alvos diretos. Também foram autorizadas buscas em 18 endereços e o acesso a dados de celulares e equipamentos eletrônicos apreendidos. As diligências ocorreram em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão.


