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Rotas repetidas ajudam mamíferos ameaçados a vigiar áreas de risco

Estudo com elefantes no Zimbábue e macacos-prego na Bahia mostra como o medo da caça altera deslocamentos e pode afetar o ambiente.

Rotas repetidas ajudam mamíferos ameaçados a vigiar áreas de risco
Foto: Folhapress

Macacos-prego-do-peito-amarelo e elefantes-africanos estão deixando de testar novos caminhos em áreas associadas à presença humana. Nesses locais, os animais repetem trajetos conhecidos, uma estratégia que reduz a atenção necessária para a navegação e permite maior vigilância contra caçadores e outros perigos.

O comportamento foi identificado em um estudo internacional publicado em junho na revista Scientific Reports. A pesquisa analisou dez elefantes-africanos monitorados por coleiras em Victoria Falls, no Zimbábue, e um grupo de macacos-prego-do-peito-amarelo da Reserva Biológica de Una, no sul da Bahia. O grupo de primatas tinha entre 32 e 37 indivíduos e foi acompanhado por dois anos, com localização registrada por GPS.

Como o risco altera os caminhos

A percepção de perigo, chamada pelos pesquisadores de paisagem do medo, influencia a maneira como os animais ocupam e atravessam seus territórios. Áreas com maior possibilidade de encontro com predadores ou caçadores são percebidas como menos seguras, ainda que ofereçam mais alimentos.

Em um estudo anterior com os mesmos macacos, os pesquisadores observaram que eles permaneciam menos tempo em regiões mais perigosas, mesmo quando esses locais tinham maior quantidade de biomassa vegetal e invertebrados. Na pesquisa atual, a equipe verificou que as duas espécies também evitam mudar de rota em áreas relacionadas a experiências traumáticas anteriores, à caça permitida ou a conflitos com humanos, incluindo lavouras e cidades.

“Nossos estudos sugerem que algumas espécies optam por estratégias de navegação que demandam menos atenção ao caminho em si”, afirma Andrea Presotto, professora da East Carolina University e primeira autora do artigo. De acordo com ela, a atenção poupada pode ser direcionada ao monitoramento de sinais de risco.

Os macacos-prego ficam especialmente silenciosos em áreas de risco, como a cabruca, formação agroflorestal criada em antigas lavouras de cacau, dendê e jaca. Esses alimentos são importantes para os animais, mas o local também registra a presença de caçadores.

Os elefantes, por sua vez, podem escolher trajetos mais difíceis, como brejos e rios, nos quais o acesso humano é restrito. Para Presotto, uma rota em área alagada pode ser vantajosa porque torna mais difícil a passagem de pessoas.

Efeitos sobre o ambiente

A concentração dos animais em poucos caminhos pode alterar os serviços ecossistêmicos. As rotas evitadas pelos elefantes deixam de receber os efeitos do pisoteamento no solo e o aporte de nutrientes e sementes presentes nas fezes. Nas trilhas mais usadas, a vegetação pode não ter tempo suficiente para se regenerar diante da concentração dos deslocamentos.

No caso dos macacos-prego, o afastamento de áreas frequentadas por medo da caça pode reduzir a dispersão das sementes das espécies consumidas por eles. Os pesquisadores também apontam que as mudanças podem atingir as culturas animais, conjunto de comportamentos transmitidos entre gerações, como técnicas para obter alimento e formas próprias de vocalização.

“A paisagem do medo não é apenas um conjunto físico de lugares, como florestas, campos, rios ou trilhas, mas a percepção de risco associada a cada parte desses ambientes”, diz Patricia Izar, professora do Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e coautora do estudo. O trabalho integra projeto financiado pela Fapesp.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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