O presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia indicar o desembargador Ricardo Couto, governador interino do Rio de Janeiro, para a vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) que seria ocupada por Jorge Messias. A possibilidade é discutida como uma tentativa de reduzir a crise entre ministros da corte.
A escolha representaria a desistência temporária de Lula de indicar o ministro-chefe da Advocacia-Geral da União (AGU), seu aliado, em favor de uma solução considerada institucional por apoiadores da proposta. Couto não integra o círculo de amizades do presidente.
O desembargador assumiu o governo fluminense em março, depois da renúncia de Cláudio Castro. Ele preside o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e chegou ao Executivo estadual após a renúncia do vice-governador, Thiago Pampolha, e o afastamento de Rodrigo Bacellar, presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).
Após quatro meses de gestão, Couto tem aprovação de 47% dos eleitores fluminenses e reprovação de 31%, conforme a pesquisa mais recente do Datafolha. Para aliados de Lula, uma eventual indicação poderia ampliar o capital político do presidente no estado.
Lula tem elogiado publicamente a atuação do desembargador. Durante um ato em Bangu, na zona oeste da capital fluminense, no mês passado, afirmou que Couto estava fazendo uma “limpa” no Rio. O presidente também disse que Eduardo Paes, caso chegasse ao Palácio Guanabara, teria de manter a “limpeza” realizada pelo governador interino, que determinou revisão de contratos e exonerações.
Pressão por mudanças no governo
A possibilidade de retirar Messias da disputa pela vaga no STF é vista por aliados como uma derrota para Lula, que havia declarado a intenção de reapresentar o nome do advogado-geral da União após sua rejeição no Senado. Por isso, uma ala defende que a desistência seja acompanhada da demissão de Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal.
Esses aliados afirmam que Andrei, embora tenha a confiança do presidente, estaria perdendo as condições de liderar a corporação. Também criticam sua proximidade com uma ala do STF formada pelos ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes.
Na terça-feira (1º), Gilmar procurou Lula para pedir apoio do governo à cúpula da Polícia Federal. A conversa ocorreu durante o conflito entre Andrei e o ministro André Mendonça sobre a condução das investigações do Banco Master. O caso ganhou novos contornos depois que Mendonça determinou a elaboração, pela PF, de um relatório que expôs trocas de mensagens entre Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Segundo relatos sobre a conversa, Gilmar afirmou que havia uma disfuncionalidade nas relações entre a Polícia Federal, a AGU e o Ministério da Justiça, comandado por Wellington César Lima e Silva.
Integrantes da cúpula da PF acusam a AGU de omissão nos atritos com Mendonça. O órgão, por sua vez, sustenta que a Polícia Federal propõe medidas capazes de levar à anulação de investigações sobre o Banco Master.
Conflito entre AGU, PF e Supremo
A disputa se intensificou depois que a Polícia Federal passou a pedir que a AGU atuasse no Supremo para reduzir o controle do ministro Dias Toffoli sobre inquéritos dos quais era relator. Com aval de Lula, a AGU se posicionou contra esse tipo de iniciativa, sob o argumento de que a medida poderia levar o governo a ser acusado de interferência em outro poder.
Messias tentou construir uma solução consensual e marcou, em agosto, uma reunião entre Mendonça e Wellington Lima e Silva. Andrei não participou do encontro.
Aliados do presidente afirmam que reuniões e cafés com a participação do diretor-geral da PF vêm articulando uma ala do STF. Para colaboradores de Lula, a presença de Andrei nessa articulação, que inclui críticas a ministros do governo, teria estimulado a crise.
O presidente procurou se afastar do conflito com o argumento de que não deveria interferir em outro poder, mas se manifestou depois de conversar com o presidente do STF, Edson Fachin, e com Gilmar Mendes.
A tensão entre ministros do Supremo aumentou após a rejeição do nome de Messias para o tribunal, em uma articulação atribuída a Gilmar, Moraes e Flávio Dino. Lula passou a defender o direito de indicar o substituto de Luís Roberto Barroso e destacou o preparo técnico de Messias, que tinha apoio explícito de Mendonça e Kassio Nunes Marques. A derrota do advogado-geral da União ampliou a desconfiança na corte.
A crise se agravou a um mês do primeiro turno, quando Lula foi aconselhado a agir para evitar que o conflito passasse a orientar a agenda eleitoral.


