PATOS — O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, tem usado a divulgação de obras e a proximidade com Lula para ampliar a influência de seu grupo político na Paraíba. Em comícios no estado, ele destaca investimentos em saúde, pavimentação, creches e na transposição do Rio São Francisco, enquanto deixa em segundo plano a atuação legislativa em Brasília.
Em 20 de agosto, um comício lotou a praça Edivaldo Motta, em Patos, batizada em homenagem ao avô do deputado. De boné de Lula (PT), diante de banners e adesivos com a imagem do presidente, Motta afirmou que levaria a transposição à região em parceria com o governo federal. Também falou sobre a construção de um hospital de traumas, que deverá evitar deslocamentos de moradores do sertão até Campina Grande, em uma viagem de três horas.
“Recebi hoje a ligação do presidente Lula com a autorização do Ibama, para que nunca mais falte água no sertão paraibano”, disse Motta no evento. O deputado também mencionou 200 ruas asfaltadas, um teatro em construção há quase duas décadas, o custeio da saúde, novas creches e a administração de seu pai, Nabor Wanderley (Republicanos), candidato ao Senado.
Em Juazeirinho, no dia seguinte, Motta foi recebido pela prefeita Anna Virgínia, por Nabor e pelo governador Lucas Ribeiro (PP). O presidente da Câmara mencionou a aprovação da PEC do fim da escala 6x1 e a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000, mas as verbas destinadas ao município foram o trecho que mais mobilizou o público.
A estratégia está ligada à candidatura de Nabor, que aparece em terceiro nas pesquisas e reúne cerca de 180 dos 223 prefeitos da Paraíba, inclusive de partidos adversários. Um candidato do MDB ao Senado recorreu à Justiça Eleitoral contra Motta e o pai, alegando abuso de poder político. O ex-governador João Azevedo (PSB), favorito na disputa pelo Senado, também perdeu prefeitos apoiadores para Nabor.
Rede política e trajetória
A construção de alianças municipais acompanha a trajetória de Motta. Em 2010, ainda estudante de medicina, ele concorreu à Câmara dos Deputados com apoio da estrutura política da família. Patos lhe deu 24 mil votos, mais de um terço do total obtido. Outros 62 mil vieram principalmente de municípios próximos. Ele foi eleito aos 21 anos, no primeiro de seus quatro mandatos.
Na Câmara, a aproximação com Eduardo Cunha o levou à presidência da CPI da Petrobras em 2015. Motta se ausentou da sessão que cassou o mandato de Cunha, e os dois continuam próximos. Em 2018, Motta assumiu o comando estadual do Republicanos, que tinha apenas um prefeito. Dois anos depois, o partido elegeu 18 prefeitos e hoje tem 50, além da maior bancada de deputados federais e estaduais da Paraíba.
A presidência da Câmara ampliou o acesso de Motta a emendas parlamentares e cargos, reforçando sua rede de apoiadores. O grupo também trabalha para eleger Olívia, sua prima, como sucessora da avó, Francisca, na assembleia estadual, e para aumentar de três para quatro o número de deputados federais do Republicanos.
Aproximação com Lula
A relação entre Motta e Lula mudou depois dos atritos de 2025. No período, o presidente da Câmara trabalhou contra o governo para derrubar o aumento do IOF e escolheu um relator de oposição para o projeto anti-facções criminosas, que terminou desfigurado.
Neste ano, Motta passou a frequentar eventos no Palácio do Planalto e explorou a relação pessoal com Lula. Em 7 de setembro, viajou a Brasília para o desfile pátrio ao lado do presidente. Também ajudou na negociação para que PP, União Brasil, Republicanos e Podemos permanecessem neutros na eleição presidencial e não apoiassem Flávio Bolsonaro (PL).
Lula não apoia formalmente Nabor, mas também não desautoriza o uso de seu nome pela família na campanha. Na Paraíba, o presidente obteve 66,6% dos votos válidos em 2022. A aproximação pode favorecer Motta na disputa pelo comando da Câmara caso Lula seja reeleito, embora os dois possam voltar a divergir sobre as emendas parlamentares. Lula defende a redução desses recursos, enquanto Motta é apresentado como adversário da medida.


