MARANHÃO — A disputa entre grupos políticos ligados a Flávio Dino e ao governador Carlos Brandão chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde processos com impacto na política maranhense estão sob relatoria do ministro. Adversários afirmam que Dino poderia usar a função para influenciar o cenário estadual. Ele nega impedimento e sustenta que não atua mais na política.
A assessoria do ministro declarou que as hipóteses legais de impedimento estão previstas no Código de Processo Penal e não se aplicam aos casos. Também informou que Dino não trata de assuntos políticos desde fevereiro de 2024 e não responderia a críticas sem relevância para os processos judiciais.
Entre as ações relatadas por Dino estão processos que envolvem aliados e integrantes do grupo de Brandão. Um deles trata dos desdobramentos de um assassinato em um centro comercial de São Luís. Outro discute regras para indicações ao Tribunal de Contas do Estado. Decisões recentes afastaram Daniel Brandão da presidência do TCE e determinaram a prisão domiciliar e o afastamento do secretário Raimundo Cutrim.
Disputa entre antigos aliados
Brandão foi vice-governador de Dino, que comandou o Maranhão por dois mandatos, de 2015 a 2022. O governador lançou o sobrinho, Orleans Brandão, para a sucessão estadual. Do outro lado está o vice-governador Felipe Camarão, candidato ao governo e apontado como uma aposta de Dino.
Em declaração, Camarão afirmou que o Brasil merece ter Dino como presidente depois do fim de sua missão no Supremo. Dino havia dito, durante a sabatina no Senado em dezembro de 2023, que deixaria a vida política caso fosse aprovado para o cargo.
A trajetória anterior ajuda a explicar a permanência da dúvida sobre sua atuação. Dino foi juiz federal por 12 anos, deixou a magistratura para disputar a primeira eleição em 2006 e permaneceu na política por 18 anos. Foi deputado federal pelo PC do B e ministro da Justiça antes de assumir a cadeira no STF.
Áudios e negociações
A desconfiança aumentou após o vazamento, em outubro de 2025, de áudios atribuídos a integrantes do grupo de Dino. As conversas tratavam de uma possível pacificação com Brandão e condicionavam a retomada de indicações para o TCE-MA à escolha de candidatos a prefeito em alguns municípios, principalmente Colinas.
Os nomes mencionados como emissários foram os deputados federais Márcio Jerry e Rubens Junior, além de Diego Galdino. Rubens Junior reconheceu ter procurado Dino, mas afirmou que foi a pedido de Brandão e que a conversa buscava a pacificação. Segundo seu relato, Dino respondeu: “Processo judicial se trata nos autos, nunca em uma mesa de discussão política”.
O vazamento levou à demissão de Rubens Pereira, pai de Rubens Junior, do governo e aprofundou o rompimento entre os grupos. Em outro áudio, uma voz atribuída a Rubens afirmou que Dino apoiaria Camarão, descrito como alguém muito próximo do ministro. Rubens Junior disse que o caso é investigado pela Polícia Federal; Jerry classificou as gravações como criminosas.
Mensagens atribuídas ao juiz federal Ney Bello também apareceram no episódio. Elas mencionariam cinco medidas que Brandão deveria tomar sob ameaça de não chegar em abril de 2026. Bello não respondeu por meio da assessoria do Tribunal Regional Federal da 1ª Região e afirmou, na ocasião, que não exercia atividade político-partidária nem relatava processos envolvendo políticos maranhenses.
A atuação recente de Dino também foi questionada após a sessão da última terça (15), quando pediu vista em uma análise sobre a investigação do ministro Alexandre de Moraes por sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O episódio reativou, em diferentes campos políticos, o debate sobre os limites entre o passado político de Dino e sua função no STF.


